Ivete Carneiro em S. Paulo, Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva vai subir a rampa do Palácio do Planalto pela segunda vez a 1 de Janeiro de 2007. Depois de um primeiro mandato abalado por escândalos políticos e de uma tumultuosa campanha, o ex-sindicalista parte para mais quatro anos de Governo com a popularidade praticamente incólume. Como ficou patente quando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello, admitiu cerca das 19.35 horas locais (mais três em Portugal), e com 91,31% da contagem dos votos concluída, que Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), tinha já 60,54% dos votos, contra 39,46% de Geraldo Alckmin, o que, faltando apenas 16 milhões de boletins, mesmo que por absurdo revertessem todos para Alckmin, não chegariam para ultrapassar a vantagem de 19 milhões já atribuídos ao ex-sindicalista. Uma vitória do candidato 13 anunciada por múltiplas sondagens e confirmada nas urnas. Sem surpresas.
Mal está na obrigação
A ausência desse elemento ficou, aliás, bem reflectida na percepção de alguns dos cerca de 125 milhões de eleitores que ontem se deslocaram às urnas por todo o Brasil. Em S. Paulo também. Para Amaurí, o mal está na obrigatoriedade do voto. "Tem muita gente que nem sabe por que vota". Para Maria Lúcia, nas sondagens e na comunicação social. "Esses que não lêem nem olham televisão, na hora de votar pensam 'este vai à frente, deve ser o melhor'". Para Wilma, num sistema que permite reeleição. "Quatro anos chega, tem que mudar". Todos votaram no social-democrata Geraldo Alckmin, todos sabem que é em vão e todos lamentam os percalços da ainda muito jovem democracia brasileira.
Para Teresinha, no entanto, o mal dos outros esteve numa campanha vazia de conteúdo e cheia de ofensas. "Ele só xingou. Se não tivesse xingado tanto, seria presidente. E isso do dinheiro? Eu se estivesse lá também pegava algum, ué!". Votou na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, "claro", apesar de viver na mesmíssima "zona bem" da cidade de S. Paulo, um bairro de classe média-alta cujo próprio nome soa a superioridade. Higienópolis. A cidade limpa.
Num dia de eleições presidenciais que nem parecia sê-lo, a calma conseguida com uma série de leis restritivas deu para todas as interpretações. Proibido o álcool, a propaganda e o "boca da urna", as "caminhadas" e os cartazes de rua, restou vestir a melhor farda e votar em calma. No centro de voto do Instituto McKenzie de Higienópolis - o maior de S. Paulo, com dezenas de milhares de votantes inscritos - desfilou gente bem vestida e gente simples.
A mistura possível de classes, reflectida na divisão de votos. Enquanto os mais simples falam de Lula com um sorriso de satisfação, preso a gente bem vestida um caniche branco enverga autocolantes com o número 45 de Alckmin, a única manifestação permitida, junto com as t-shirts partidárias, usadas, de resto, pela própria primeira dama do Brasil, quando acompanhou Lula à urna electrónica, e pelos filhos de Alckmin. Peculiaridades de um país onde não soa estranho um Governo em reeleição anunciar medidas entre as duas voltas da consulta…
Ainda assim, a liberdade também tem limites, e 243 pessoas foram presas por propaganda proibida perto dos locais de voto ou por transporte irregular de eleitores, segundo informações do TSE. Dos poucos incidentes registados, um deles ocorreu na Zona Eleitoral 258, na região de Moema, zona sul de S. Paulo, quando José Dirceu, ex-deputado e ex-ministro da Casa Civil do Governo Lula, o primeiro a demitir-se na sequência do escândalo do "mensalão", foi recebido pelos demais eleitores com vaias e gritos de "ladrão" e ameaças de agressão à mistura. O resto foi a festa na Avenida Paulista.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição presidencial em Portugal, com 52,95% dos votos válidos.Na votação, realizada em Lisboa e no Porto, Lula teve 2007 votos.O candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, teve 1783 votos, ou 47,05% do total. Na primeira volta, a votação em Portugal ficou muito próxima das percentagens do resultado geral nas eleições. Registraram-se também 177 votos em branco e 125 nulos. No total, o número de votantes atingiu os 3790. Mas, enquanto que em Lisboa Lula ganhou com 1312 votos contra 1071 de Alckmin, no Porto o vencedor foi o candidato do PSDB, com 712 votos contra os 695 do petista. Em relação ao total de 7619 inscritos, faltaram 3527, o que dá uma abstenção de 46,29%.