Num ranger de pneus, a Unidade Móvel médico-social de Mértola, finalista de um prémio internacional de boas práticas das Nações Unidas, pára à entrada de Vale Camelos, diante do canteiro de uma laranjeira que servirá de consultório improvisado.
A buzina da carrinha, que desde 2002 presta cuidados "ambulantes" de enfermagem e assistência social aos idosos das freguesias isoladas do concelho, quebra o silêncio "ensurdecedor" do monte e anuncia a chegada da equipa, atraindo a primeira utente. Apoiada na bengala que a sustenta de pé, cartão de utente na mão, Maria Augusta, de 75 anos, aproxima-se da carrinha, senta-se no canteiro e cumprimenta a animadora social Paula Nunes e José Frade, um dos seis enfermeiros que a acompanham, de terça a sexta-feira, em regime de rotatividade.
"Devo ter a tensão avariada. Estou aparvalhada da minha cabeça. Hoje não sou capaz de subir para a carrinha", queixa-se Maria Augusta, enquanto "desnuda" o braço, à espera da anunciada vacina contra a gripe. Maria Augusta é uma das 1500 pessoas que a unidade móvel pretende vacinar até final do mês, durante a campanha de vacinação anti-gripe.
De injecção na mão, José Frade agacha-se junto de Maria Augusta e, em jeito de brincadeira, pergunta "Posso furar o braço da menina?". "Fure à vontade filho!", responde prontamente a idosa, lamentando: "Da próxima vez que vierem, já não me encontram cá. Vivo sozinha sem ter quem cuide de mim. A vontade não é nenhuma, mas talvez tenha que ir para o lar".
Os idosos e famílias desfavorecidas são os principais destinatários da unidade, criada pelo município para acompanhar situações de problemática social , como a solidão, e elaborar estratégias de controlo e prevenção de doenças. À vacinação anti-gripe, somam-se rastreios de diabetes, colesterol, osteoporose, obesidade e doenças cardiovasculares, além de acções de sensibilização sobre higiene oral, cancros da pele e da mama, auto-medicação e acidentes domésticos.
Nos últimos quatro anos, a unidade já atendeu mais de 5400 pessoas, percorrendo mais de 58 mil quilómetros.
Um trabalho percursor que permitiu à unidade estar entre os finalistas do Prémio Internacional Dubai/ONU - Habitat de "Melhores Práticas para a Melhoria das Condições de Vida", tornando-se a primeira candidatura portuguesa a conseguir chegar à última fase de escolha.
"A equipa está orgulhosa pelo reconhecimento", disse à agência Lusa a coordenadora da unidade, Isabel Soares, ainda que confesse "O reconhecimento e o carinho dos utentes é o que mais nos comove e incentiva".
"Para estas pessoas, que vivem isoladas e sozinhas o importante são dois ou três dedos de conversa", frisa o enfermeiro José Frade habituado a "servir" de "muro das lamentações". "É muito gratificante poder dar-lhes colinho", salienta Paula Nunes.
* Jornalista da agência Lusa