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Fábrica que custou um euro factura mais de meio milhão

Luís Henrique Oliveira, Lisa Soares

Completam-se, hoje, dois anos sobre a tentativa de retirada do material e previsível fecho de uma empresa têxtil de Arcos de Valdevez, intenções goradas pelos trabalhadores da "Afonso, Produção de Vestuário", na sua esmagadora maioria mulheres, que montaram durante meses uma vigília à fábrica, acabando, mesmo, por comprá-la aos antigos donos, pelo valor simbólico de um euro. E, dois anos volvidos, as operárias, conduzidas pela mão da antiga gerente e actual administradora, Conceição Pinhão, conseguiram elevar o volume de negócios da empresa e aumentar o número de trabalhadores (de 87 para 93). "Objectivos atingidos com o sacrifício de todos", assinala a responsável.

Deslocalização travada

Travada a deslocalização para o Leste europeu por parte dos antigos donos (de nacionalidade alemã), seguir-se-iam tempos de indefinição, durante os quais sobejaram os encargos deixados pela anterior administração mas rareavam as encomendas, até então essencialmente dirigidas a grupos também geridos pelos antigos accionistas. A passivo da ordem dos 250 mil euros, devidos, principalmente, à Segurança Social e a fornecedores, bem como às próprias trabalhadoras (que só sob a direcção de Conceição Pinhão viriam a receber o subsídio de Natal de 2004) juntava-se o declínio das encomendas, o que fez, em princípios do ano passado, a unidade passar por "momentos de grande aflição". Todavia, a administradora assegura que os salários "nunca ficaram" por pagar. "Podiam tardar um dia ou dois, mas foram sempre honrados, com o esforço de todos nós e a ajuda de alguns clientes, que sempre acreditaram na viabilidade da fábrica", assevera. Concentrando a aposta em produtos de camisaria, a unidade que, um ano antes, esteve prestes a encerrar, viria a fechar as contas de 2005 com um volume de negócios da ordem do meio milhão de euros, montante que Conceição Pinhão estima que ascenda, este ano, a 800 mil. Quanto a encargos, refere que a unidade é ainda devedora de 60 mil euros à Segurança Social, observando que as dívidas a fornecedores "não serão, hoje, significativas".

No próximo ano, espera a responsável que a empresa "consiga erguer a cabeça" e realizar investimentos tidos como "necessários", designadamente, em novas máquinas, de modo a aumentar a qualidade e a produtividade da fábrica, cuja globalidade da produção tem por destino o mercado externo. "Actualmente, os clientes espanhóis (entre os quais se conta o grupo Inditex) serão responsável por 65% do que nós fazemos, destinando-se grande parte do resto da produção para a Alemanha", refere.

"Ao fim de dois anos à frente da empresa, o balanço que posso fazer é francamente positivo, apesar de todas as dores de cabeça. Continuamos cá todos a trabalhar. Se não fosse pelo nosso esforço, teríamos ido para o desemprego e, a esta altura, já não receberíamos o subsídio há muito", disse.

Dos dois últimos anos, Helena Araújo, a mais antiga funcionária da unidade fabril, guarda na memória "momentos difíceis", em que, assegura, muitos "passaram várias noites em claro, além de muito frio", para impedir a retirada do material da fábrica, esforço colectivo que, reconhece, "valeu a pena". Para a funcionária - a única que labora na unidade desde o primeiro dia, "havia outras, mas já não estão cá" -, a manutenção da "Afonso" em actividade "foi o resultado do esforço de todas as colegas, assim como da Dona Conceição, que esteve sempre do nosso lado". Se assim não fosse, garante que a fábrica "teria desaparecido há muito", levando com ela os postos de trabalho de perto de uma centena de mulheres. "Dois anos depois, continuamos aqui, o que é o mais importante. É certo que uma ou outra colega optou por sair e, mesmo, emigrar, o que compreendemos. Mas nunca nos faltou um mês de salário neste tempo todo e, para se conseguir isso, trabalhámos muito", revela. Helena, que entrou para a empresa com a idade de 19, não se imagina a trabalhar noutro lugar "As pessoas de quem gosto estão aqui".

Margarida Silva há 20 dias na "Afonso" já sente o espírito do grupo

Margarida Silva tem 18 anos e o 9.º ano de escolaridade completo. Há 20 dias, abraçou, na "Afonso", o seu primeiro emprego, apresentando-se como a mais nova funcionária da têxtil de Arcos de Valdevez. Antes de começar a procurar trabalho, a jovem, residente na vizinha freguesia de Vilafonche, cursou, ainda, uma acção de formação profissional na área da Animação Cultural, proposta que acabaria por abandonar, a meio do percurso. "O curso (que lhe daria equivalência ao 12º ano) era de três anos mas só lá estive um. Não me agradou", disse. Inscreveu-se, então, no centro de emprego. Todavia, a notícia da oferta de trabalho chegar-lhe-ia por uma pessoa de casa "foi o meu pai que me disse que a fábrica estaria a admitir pessoal e vim cá. Pouco depois, estava já a trabalhar, na secção de confecção". Afirmando-se "agradada" com as funções que lhe foram confiadas na empresa, considerou "muito importante" o apoio que tem recebido das colegas, desde que passou, pela primeira vez, pelos portões da "Afonso": "Desde o primeiro instante que me fizeram sentir muito bem. Se isso não acontecesse, seria tudo mais difícil".

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