eitado na alcofa, o Rafael (nome fictício) tenta integrar-se num novo mundo de cores e sons. Tem apenas três semanas e já está no berçário. É um dos meninos da "casa". Mora no Lar de S. José, em Real, Braga, onde, como ele, há 15 crianças acolhidas com as mães adolescentes. São vidas sinuosas, resgatadas de verdadeiros dramas familiares, que ali encontram um tecto protector.
A média de idades das mães solteiras situa-se nos 17 anos, embora o limite sejam os 21. A mais nova entrou com 14, já com um filho nos braços. A instituição, que opera a nível nacional, dada a falta de infraestruturas do género, tem capacidade para 35 mães com filhos. Criam-se laços para a vida. "A Associação de S. José acolhe as mães até as crianças terem três anos, mas, na prática, não é isso acontece. Algumas vão ficando até termos projectos de vida para elas", conta a directora, Lúcia Castro.
No berçário, os bebés estão tranquilos. "Estão a portar-se bem por estar cá gente", brinca uma das funcionárias. Há olhos azuis, atentos, e uma mãozinha que se estica, há uma menina que palra, enquanto o Rafael se dedica à chupeta, na novidade dos primeiros dias de vida. Ali não se vivem os pesadelos que povoaram a vida das mães. O Tribunal, as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e a Segurança Social tiraram-nas de ambientes degradantes, e por vezes, perigosos.
Alcoolismo e violência
"Há casos de pobreza extrema, pais abusadores, violação por parte dos padrastos, alcoolismo e violência", continua a responsável. A protecção surge de um enorme abraço, de 23 funcionárias, que com elas vivem o quotidiano. Como a Dona Rosa, a Dona Felicidade, a Cláudia ou a Elisabete, a Rosário (da equipa técnica) entre tantas outras, que choram com os seus dramas e as suas alegrias.
"Toda a gente sabe que o filho da A deu os primeiros passinhos, teve o seu primeiro dente ou fez aquela gracinha", continua Lúcia Castro.
A directora explica que, por parte da equipa técnica e monitores, há um enorme cuidado para impor regras às adolescentes, a começar pelos hábitos de higiene e cumprimento de horários.
"Algumas nem estavam habituadas a ter uma refeição descansada e depois conversar à mesa", esclarece. Tal qual como uma família, a ordem impõe-se, a pensar na harmonia. Lá dentro, contribuem nas lides domésticas, ao mesmo tempo, que, no exterior, vão adquirindo competências, sempre incentivadas pelos profissionais.
Durante o acolhimento, algumas frequentam o percurso escolar normal, outras ingressam em cursos profissionais, e outras ainda arranjam emprego, mas, ao longo dos anos, sempre que a autonomia se dá, os vínculos são difíceis de cortar.
"Temos uma mãe que já está a trabalhar e tem que sair para a vida lá fora. Ficou triste quando lhe dissemos, sabemos perfeitamente que todos os Natais e Páscoas virá passá-los connosco", revela a responsável.
A Associação de S. José tem no lar outras crianças, sobretudo das zonas das Parretas. Na creche, Jardim de Infância (até aos seis anos) e ATL estão meninos noutra situação de admissão que se juntam aos 15 "da casa". No total são 127.
Embora esta Instituição Particular de Solidariedade Social, de cariz religioso, fixe como máximo um preço de 150 euros, nenhuma família atinge esse escalão. Muitos dos pequenos utentes, tal como os meninos em acolhimento, não pagam nada a não ser o abono de família. "Estamos numa zona bastante complicada", admite Lúcia Castro.
Lar de S. José é tecto
para mães adolescentes
À conquista da autonomia
Nos pequenos quartos, enfeitados com brinquedos, há uma cama individual e um berço. Uma vida em família. Pelos corredores circulam rotinas de gente que tenta integrar-se na vida normal e regressa a "casa", depois, para recuperar energias. Viver assim, debaixo de uma cúpula, faz com que as adolescentes queiram esquecer as tristezas vividas e recomeçar.
Os números dizem do trabalho desenvolvido Nos últimos dez anos, de entre as 105 jovens acolhidas no lar, 65% regressaram à família, 20% formaram a sua própria família e 10% autonomizaram-se. A maior parte são de Guimarães, Barcelos, e Fafe. Vêm de todo o Minho, do resto do País e até das ilhas.
A longo prazo, a instituição quer também acolher mulheres vítimas de violência doméstica, numa nova valência. Um dos edifícios foi, já deitado abaixo para ser totalmente reconstruído. O segundo, em funcionamento, entrará em obras de melhoramento assim que o outro estiver pronto. Só, então, se poderá pensar o futuro.
"Não queremos juntar os dois serviços. O limite de idades para as mães solteiras é de 21 anos. Misturá-las com mulheres mais velhas seria criar uma bomba relógio", considera Lúcia Castro. No âmbito da cerimónia solene do novo Ano Pastoral dedicado à "Família Solidária, o arcebispo de Braga visitará hoje a associação, às 18 horas.