Foram marítimos, soldadores, mecânicos, electricistas, vendedores, trabalhadoras de lavandaria e para eles os computadores e a internet era um bicho com mais de sete cabeças. Agora, reformados, usando como argumento escreverem a história das suas vidas, inscreveram-se num curso de formação para adultos onde estão a conseguir provar a si mesmos que conseguem fazer aquilo que nunca tiveram oportunidade de experimentar. O curso decorre na Escola Secundária de Monserrate, com mais de dez reformados numa mesma sala, onde se diz messenger, e-mail ou net como se sempre os formandos tivessem usado estes programas.
Há quem partilhe mesmo a experiência em casal. Ele (com 74 anos) nunca tinha tentado teclar. Ela com 58 já tinha algumas "luzes". "O meu marido falou-me deste curso e eu disse se ele viesse eu também vinha e, pronto, cá estamos", revelou Maria José. Curiosamente, não gosta de computadores, mas sabe que "será analfabeta daqui a alguns anos se não souber trabalhar com eles". Sentado lado a lado, o casal admite que os computadores "já fazem parte da rotina conjugal", ela para procurar "receitas culinárias e saber mais sobre história de arte" e ele "prefira ler jornais, ver o valor de moedas de colecção e falar com o filho que está em Lisboa".
José Domingos, com 60 anos, confessa que "já estava cansado de pedir que os filhos fizessem coisas no computador para a empresa e por isso decidiu participar no curso". Actualmente construtor civil em Portugal, esteve muitos anos emigrado em França, onde foi ladrilhador e seguramente histórias suas, dessa época, estarão retractadas no texto final que fará.
Mas muitas outras preencherão os espaços das páginas em formato de processador de texto, naquela sala, quer seja a do electricista que "podia ter sido alfaiate, não o tivesse mandado buscar uma pedra para afiar agulhas e ele ter pensado que era brincadeira e não ter voltado ao seu primeiro posto de trabalho logo no primeiro dia", quer seja as memórias do tempo da PIDE, de Osvaldo Cruz, de 59 anos ou ainda mesmo, todas as circunstâncias que levaram Manuel Soares, com 59 anos, a ter "representado Portugal num concurso de profissões, na arte da soldadura, na Escócia".
Mas as histórias, destas vidas, são pigmentadas também em tons escuros, perante dramas vividos. Que o digam João Martins e Manuel Lomba, ambos com ligações íntimas ao mar. Um recorda ainda "como se fosse hoje o dia em que a sua embarcação foi albarroada por um vapor, acidente do qual perdeu cinco colegas no mar" e outro "sente ainda a tensão vivida quando o navio e que seguia, com mais de mil tripulantes a bordo teve um rombo no primeiro deck, obrigando a tripulação a preparar toda a operação de salvamento durante a noite, sem que os passageiros se apercebessem do drama que se vivia no Alaska".
Histórias serão publicadas numa brochura e num blogue
"Este é um projecto europeu que está vocacionado para troca de experiências na área da educação e formação de adultos ao longo da vida e a frequentá-lo estão treze formandos neste primeiro curso, e as idades variam entre os 47 e os 74 anos", revelou o coordenador do projecto, Manuel Simões. "A história da minha vida" surge como temática principal pois o objectivo é que cada formando descreva as experiências adquiridas nas suas vivências. Se nós verificarmos as pessoas mais idosas são aquelas que mais, podem contribuir para esta troca inter-cultural e são aquelas que mais estiveram à margem de uma série de oportunidades como a educação, a formação e as novas tecnologias e por isso, decidimos apostar nesta classe etária", afirmou Manuel Simões. No primeiro módulo da formação os formandos aprendem aprendem a trabalhar com a internet, correio electrónico, messenger, entre outras funcionalidades, como a criação de weblogs. Para os ajudar na descrição das duas histórias terão também um módulo dedicado exclusivamente à escrita criativa. Numa terceira fase concluirão as suas histórias acompanhados permanente por uma formadora. "Depois vamos fazer uma brochura compilando todas as histórias, mas decidimos também publicar todas as histórias num blogue que irá ser criado para esse efeito".