H á 10 anos, o comité de peritos da UNESCO declarava o Porto como Património Cultural da Humanidade. Houve júbilo, contentamento e os políticos bateram palmas. Até os sinos das igrejas tocaram a rebate. Houve promessas de recuperação do casco histórico da cidade. Dez anos depois, está quase tudo por fazer . A Câmara do Porto não programou qualquer actividade para assinalar a distinção.
Foi um caminho árduo e difícil até o Porto conseguir o desejado galardão. Pelo caminho, ficaram dias e noites de preparação da candidatura, gente empenhada em derrubar muros e burocracias para o projecto atingir o êxito. "Foram dias empolgantes. Mas não foi nada fácil", recordou, ao JN, o arquitecto Rui Loza, um dos participantes activos no processo de candidatura à UNESCO.
Recuando no tempo, o antigo responsável da Comissão para a Renovação Urbana da Área da Ribeira-Barredo (Cruarb) e hoje a exercer funções na SRU-Sociedade de Renovação Urbana/Porto Vivo, recorda um momento "particularmente emotivo", já que, quando estava em Paris, na reunião de peritos da UNESCO, surge a informação de que o Estado português se tinha esquecido de enviar algumas peças consideradas fundamentais para a aprovação do dossiê. "Quando estavam os peritos à mesa de trabalho, demos conta que o Porto não constava na lista dos bens a classificar. Foi preciso aguardar pela chegada de um fax de Lisboa para a candidatura ser apreciada", contou.
Recordações à parte, Rui Loza tem uma posição pouco entusiástica face ao desenvolvimento dos diferentes programas de reabilitação e critica as diferentes opções políticas em termos de recuperação patrimonial.
"Podia-se e devia-se ter ido mais além, mas, ao longo dos anos, existiu uma grande dispersão de prioridades. Por exemplo, em 2001, quando o Porto foi Capital Europeia da Cultura, as verbas foram desviadas para outras áreas. Basta consultar a evolução dos investimentos para outros lados. Foi uma opção errada".
E hoje, como vê a requalificação da zona histórica? Já existem instrumentos capazes de dar outro sentido ao Porto de Garrett, Eugénio e Agustina? "Sim. Hoje, já existe legislação que permite agilizar processos de requalificação arquitectónica. Há um ano, a intervenção estava circunscrita a cinco frentes de obra e, hoje, existem cerca de 30 quarteirões", sublinhou Rui Loza. Como o regresso à Baixa portuense está na moda, os investidores espreitam oportunidades "Estou optimista. O título da UNESCO é demasiado honroso para o Porto desperdiçar esta oportunidade histórica. Estou optimista", insistiu.
"O Porto beneficiou imenso em termos turísticos com o título da UNESCO. Ganhou uma visibilidade que não tinha", considerou Jorge Osório, presidente da Associação Turismo Norte de Portugal.
Dez anos depois, o sonho está por cumprir, mas a enorme mancha da parte antiga da cidade começou a mexer. Será que vamos ser dignos herdeiros deste legado histórico e patrimonal?