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Ouvir jazz a ler

Rui Branco

O

s amantes de jazz portugueses habituaram-se, durante décadas, a recorrer a textos em francês ou em inglês quando queriam saber o que quer que fosse sobre um músico ou sobre um determinado período desta tipologia musical.Pontualmente foram aparecendo traduções de algumas obras ou então os livros do musicólogo português mais produtivo nesta área, Jorge Lima Barreto.

Curiosamente foram os franceses que escreveram os primeiros grandes ensaios em torno do jazz. Esta estética musical é apontada por muitos especialistas como o único contributo dos Estados Unidos para a cultura universal, ainda que os próprios americanos só tivessem despertado para essa realidade quando observaram a forma como os críticos franceses trataram o som que lhes chegava do outro lado do Atlântico.

Em Portugal tivemos de aguardar até ao ano de 2006, ou seja, mais de 100 anos depois do aparecimento do jazz, para nos chegar na nossa língua compêndio tão vasto e esclarecedor como é a "Enciclopédia ilustrada do jazz &blues", organizada por Howard Mandel.

A obra começa logo por nos seduzir pelo prefácio, assinado pelo guitarrista John Scofield. O texto é um manifesto de humildade por parte do músico, onde, para além de considerar que "o jazz e o blues são os estilos musicais mais influentes, generalizados e definitivos do século XX", a dado passo confessa que "ainda me belisco quando penso na oportunidade que tive de tocar com tantos dos meus ídolos" e também que " tenho sido igualmente inspirado várias vezes por gente com metade da minha idade". E nestas duas frases, Scolfield sintetiza o que tem sido esta apaixonante estética musical ao longo dos anos um sucessivo encontro de gerações de geniais instrumentistas que, com as suas trocas de fluidos criativos, têm construído esse gigantesco edifício musical que é o jazz.

E para entrarmos neste edifício ímpar nada melhor do que nos munirmos desta enciclopédia, que nos serve como cicerone para uma viagem apaixonante, que se divide em 10 capítulos, começando por "Os primeiros anos", saltando depois de década em década até aos anos 80, encerrando com "A era contemporânea" e "Instrumentos & equipamento".

Cada capítulo remete para uma faixa em MP3 e para comentários escritos no site www.musicfirebox.com. Uma colecção notável de fotografias ressuscita todos aqueles vultos inigualáveis que já só vivem nos discos que temos nas prateleiras lá de casa ( e da forma inacreditável como tocavam até dá a impressão que nunca pertenceram ao reino dos seres humanos - e ,se calhar, não...).

Qualquer apreciador de jazz tem tendência para, num compêndio deste género, ir logo à procura dos músicos que mais lhe dizem respeito. Não nos cansamos de ler os prodígios de que foram protagonistas e que ainda hoje em dia não estão ao alcance de quem quer que seja.

E essas histórias trazem-nos à memória ainda outras que, se calhar, já não cabiam nesta enciclopédia (lembro-me, por exemplo, de ouvir o baterista Elvin Jones contar que quando integrava o quarteto de John Coltrane já não combinavam o que iriam tocar ao vivo, limitavam-se a seguir o saxofonista. Resultado chegavam a tocar o mesmo tema durante três horas, porque Trane não parava de improvisar…).

Com maior ou menor destaque, estes heróis estão lá todos para nos atear cada vez mais a chama jazzística dentro de nós.

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