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"Vi os pescadores morrerem nas cinco horas sem socorro"

Ana Trocado Marques

"Vi os pescadores morrerem

nas cinco horas sem socorro"

"Vi-os morrer, um de cada vez...". As mãos no rosto tapam as lágrimas a correr. A frase é interrompida pela dor. Um dia depois, Vasyl Huryn, de 46 anos, o único sobrevivente do naufrágio do "Luz do Sameiro", anteontem, na praia da Légua, em Alcobaça, sete milhas a norte da Nazaré, não esconde a revolta cinco horas dentro de água a dez graus, o desespero a pedir socorro que, para os seis colegas - todos das Caxinas (Vila do Conde) -, chegou tarde de mais, a dor de quem os viu morrer sem conseguir impedir, a 50 metros da praia.

Ainda anteontem, o corpo de Ricardo Marques (46 anos) deu à costa na praia da Légua, às 10.15 horas. Pouco depois das 15, Fernando Cartucho (42) foi recolhido, já sem vida, pelo helicóptero. Uma hora depois, o corpo de José Elias Viana (57) dava também à costa. Ao final do dia de ontem, continuavam desaparecidos o mestre Inácio Maio (42), João Cartucho (50) e o contramestre José Maciel Ferreira (40).

"Saímos da Nazaré entre as 2.30 horas e as 3. Vínhamos a dormir. Só o mestre e o Zé - o contramestre - vinham acordados. Passada uma hora e tal, ouvimos um barulho grande", explicou, ao JN, Vasyl, na tarde de ontem. O ucraniano, internado no Hospital de Leiria, após o naufrágio, com ferimentos ligeiros, regressou, também ontem, às Caxinas, numa carrinha da Câmara de Vila do Conde, com o presidente da Junta de Freguesia, José Maria Postiga, que desde anteontem estava com as famílias na Nazaré, a "dar apoio e palavra de conforto".

Quando as redes se meteram na hélice do "Luz do Sameiro", cinco tripulantes - entre os quais, Vasyl - estavam a dormir. Com o estrondo do barco a encalhar, subiram ao convés da embarcação.

"O mestre tentava pôr o motor a trabalhar, mas o barco não andava. As redes meteram-se na hélice. Depois, o barco caiu e começou a entrar água", recordou Vasyl, cozinheiro no "Luz do Sameiro" há ano e meio. De acordo com Vasyl, o "Luz do Sameiro" encalhou às 5 horas, duas antes da hora a que a Capitania da Nazaré diz ter recebido o primeiro sinal satélite (6.42), ainda "inconclusivo". Só por volta das 7.30 horas, afirma o capitão do porto da Nazaré, chegou a confirmação da localização do barco.

A essa hora, garante Vasyl, os sete pescadores - que o ucraniano garante terem ficado todos em cima do barco, agarrados ao corrimão, depois de este ter virado - estavam já há três horas na água, entre uma luta constante para chegar a terra e a tentativa de sobreviver ao frio e à rebentação das ondas, que os empurrava contra a embarcação.

"Dois ainda tentaram vir para terra, mas tinha muitas redes. O Zé - José Maciel Ferreira - ainda tentou entrar no bote de salvamento . Vi-o. Depois, chamei 'Zé! Zé!', mas já não estava", recordou Vasyl. Foi o primeiro dos seis pescadores que viu morrer.

Um a um, conta Vasyl, os seis colegas foram perdendo as forças. "Foram caindo, um a um. O socorro demorou muito, muito. Estive cinco horas a pedir socorro. Nos últimos 30 minutos, já estava sozinho. O Ricardo foi o último...", explicou Vasyl, que, quando o helicóptero o resgatou, pouco depois das 10 horas, estava já a perder a esperança.

O ucraniano tentou animar os colegas e até foi buscar mais do que um à água, já que, com a experiência de mergulho nas águas frias do país de Leste, sentia menos frio. Vasyl garante que foi, justamente, a maior resistência natural ao frio que o salvou. Os seis colegas não resistiram ao frio e à força do mar. Com as lágrimas nos olhos, lamenta a impotência para os salvar e, sobretudo, um socorro que tardou em chegar.

Funerais na quarta-feira

Os funerais dos três pescadores que morreram, anteontem, no naufrágio do "Luz do Sameiro" estão marcados para a tarde da quarta-feira, na igreja do Senhor dos Navegantes, nas Caxinas, afirmou, ontem, o presidente da Câmara de Vila do Conde, Mário Almeida. O autarca, que, ontem, durante a tarde, visitou os familiares dos seis pescadores, afirma que os três corpos já resgatados só serão entregues às famílias após a realização das autópsias, o que, apesar dos esforços da Câmara para acelerar o processo, só deverá acontecer na terça- -feira de manhã. Entretanto, a Autarquia disponibilizará terrenos no cemitério e ajudará as famílias a custear os funerais. O edil adiantou ainda que todos os familiares recebem já apoio psicológico e social, através da Câmara, que, com o presidente da Junta de Vila do Conde, "tem acompanhado e ajudado as famílias desde o primeiro momento", no apoio logístico, a dar todas as informações às famílias que não estão no local e a tratar das "burocracias". "Os corpos desaparecidos é que é o mais horroroso", afirma o presidente da Junta, José Maria Postiga, que "reza" para que todos sejam encontrados, "para que as famílias possam ficar em paz". ATM

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