Há uns anos, "Eureka" esteve para estrear entre nós, mas acabou por ser lançado apenas em DVD. O suficiente para se ter a certeza de que estávamos na presença de um novo e pujante autor Shinji Ayoama. Infelizmente, perdemos-lhe o rasto. Uma situação resolvida agora pelo Indie Lisboa, que o convidou para júri e o colocou como Herói Independente do festival, oferecendo uma mostra com 15 filmes.
JN|Ser independente significa não fazer concessões. Qual a maior concessão que teve de fazer na sua carreira?
Shinji Ayoama |Por vezes imagino que se fizesse um filme apenas com o meu dinheiro, como seria? Talvez ninguém o fosse ver. Mas entre produtor e realizador, não deve haver um ponto de compromisso, mas um espaço comum, mesmo que em campos opostos.
O Ocidente sempre se interessou pelo cinema japonês, desde Mizoguchi, Kurosawa ou Ozu. Mas nos últimos anos o interesse alargou-se. Porquê?
Nunca me interessei muito pela noção de localização geográfica. Gosto de dizer que me interesso mais pelo cinema português, americano ou europeu. Mas compreendo que os espectadores ocidentais nos peçam para fazermos os filmes que eles estão à espera. É algo que não quero fazer.
Autores como Lynch ou Cronenberg demoram quatro, cinco anos a fazer um novo filme. É o seu caso. Porquê?
O Godard escreveu nos Cahiers du Cinema, após a morte do Mizoguchi, que fazia vários filmes no mesmo período em que Bresson fazia apenas um. O sistema de produção não mudou no Japão. Há quase uma contradição, temos de seguir o ritmo desse sistema e ao mesmo tempo mostrar a marca do autor. Isto devia mudar.
A sua filmografia é imensamente variada quanto ao género e à forma. Como decide com que meio trabalhar?
Em vários filmes que tenho visto tenho-me perguntado se é cinema ou não. Como é que se distingue o cinema do não-cinema? Não depende dos meios com que se realiza. É algo que percebo de uma forma instintiva. O que era uma hipótese, agora é uma crença o que é importante é a qualidade cinematográfica, é o que determina a política dos autores.
Já está em Portugal há alguns dias. Pode partilhar a sua experiência junto de uma cultura tão diversa como a nossa?
Há muitos anos que penso em Portugal quando faço os meus filmes. É algo que vem do cinema de Oliveira, César Monteiro ou Pedro Costa. Em Lisboa compreendi perfeitamente porque tenho essa influência. O pensamento budista tem a noção de ciclo, de nascimento e renascimento. Na minha vida anterior talvez tenha sido português e vivido aqui.
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