Nós os jornalistas
À letra, José Leite, Pereira, Director
O ex-ministro Morais Sarmento, que já tutelou a comunicação social , defendia ontem, no "Diário de Notícias", que os jornalistas deveriam declarar qual o seu partido e classificava-nos de "assexuados políticos" por querermos viver sem ligações partidárias. Em Espanha, diz ele, "os jornalistas escolhem o sexo político".
Por cá, digo eu, muitos jornalistas não o escolhem, e ainda bem. Estão no seu direito, do mesmo modo que estariam se fizessem - e há quem faça - uma escolha. Porque o problema é outro. É uma questão de liberdade e responsabilidade. O trabalho do jornalista deve ser o mais isento possível e é isso que deve ser julgado. Pior do que não querer ter partido seria o jornalista ser obrigado a tê-lo, mas sobre isso nada diz Morais Sarmento - nem lhe foi perguntado.
O ex- ministro ufana-se de nunca ter ligado para um director de comunicação. Não haveria mal que ligasse, porque ser ministro não torna ninguém num manipulador, além de que todos sabemos que as manipulações certeiras não são feitas assim de forma tão directa.
O que o ex-ministro sugere é que há na classe jornalística muita gente a fazer passar-se por independente. Pode ser. Mas julgue-se o seu trabalho e não se obrigue ninguém a escolher uma cor. O que poderia e já deveria ter-se encarado era a possibilidade de haver uma declaração de interesses - e até de rendimentos, se se quiser - dos jornalistas que ocupam lugares de direcção. Não creio que algum se furtasse a essa obrigação.
Obrigar os jornalistas a ter partido é duvidar da possibilidade de se ser independente, é acreditar que quem não tem as nossas ideias está necessariamente ao serviço de outros interesses, de interesses perigosos, desprezíveis. Felizmente, não é assim, felizmente a vida mostra que não é, obrigatoriamente, assim. E, se é verdade que a democracia se faz com os partidos, não é menos verdade que cada vez mais os partidos precisam e ouvem os ditos "independentes". Não é por serem assexuados, pois não?
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