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Caloiros agredidos em julgamento de praxe

Tânia Moita

Dois caloiros da Universidade de Coimbra terão sido agredidos no decorrer de um tribunal de praxe. A um, os "doutores" terão rapado os pêlos púbicos e rompido parte do escroto, para além de lhe terem dado violentos cachaços que deixaram o aluno com várias nódoas negras e hematomas. A outro, os praxistas terão provocado ferimentos no crânio quando rapavam o cabelo da "vítima".

O primeiro caloiro denunciou o incidente apenas a nível da academia, para evitar que os "agressores", estudantes de medicina, pudessem vir a ter problemas, mais tarde, no eventual acesso a estabelecimentos de saúde públicos. Já o segundo aluno vítima de agressões terá apresentado queixa junto das autoridades policiais da sua área de residência. Facto que o JN não conseguiu confirmar.

O julgamento de praxe, um dos rituais já raros na academia de Coimbra, aconteceu dois dias antes da Queima das Fitas, na sede de um grupo de apoio à Académica. O único local, para além das Repúblicas, autorizado pelo Conselho de Veteranos (órgão máximo da hierarquia de praxe académica) a realizar o ritual.

Nove caloiros receberam documento de contra-fé (notificação para o julgamento) e compareceram na expectativa de passarem por mais um ritual "entre amigos e que serve para cimentar o companheirismo", confirmou ao JN um amigo de um dos agredidos.

O ritual terá, no entanto, ultrapassado "o espírito de brincadeira". Para além de unhas negras, resultantes do apanhar com a colher de pau, um dos caloiros acabou "espetado no crânio" com uma tesoura com que lhe estariam a cortar o cabelo, o que motivou a queixa apresentada às autoridades policiais . O outro caloiro queixoso ficou com as costas e o pescoço marcados com hematomas e nódoas negras, resultantes de cachaços. De resto, terá sido a brutalidade das palmadas que mais o feriram do que propriamente a lesão no escroto, alegadamente na sequência do corte dos pêlos púbicos.

João Luís Jesus, dux veteranorum da UC, vai, nos próximos dias, recolher depoimentos de todos os intervenientes e decidir se o caso chega a Conselho de Veteranos, onde "será avaliada apenas a parte praxista" e de onde poderão sair sanções como a expulsão da praxe. O Dux recorda que a praxe apenas tem sentido "quando é consensual e que o caloiro pode, a qualquer momento recusar determinado ritual " referindo que, nos sete anos em que é dux, nunca teve um caso destes.

Ao JN, o presidente da Direcção Geral da Associação Académica, Paulo Fernandes, disse que este caso é "uma mancha", "ultrapassa o âmbito da praxe" e, por isso mesmo, "deve ser resolvido nas instâncias judiciais".

Fonte próxima dos caloiros garantiu ao JN que os "doutores" envolvidos já se desculparam junto dos caloiros e que, "apesar dos boatos, o ambiente é bom na Faculdade de Medicina".

O JN tentou ontem falar com os queixosos, mas foi impossível obter declarações de ambos.

O reitor da Universidade de Coimbra, por seu turno, recusou comentar o incidente.

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