Ramalde A freguesia onde há casas de luxo, bairros e hortas
Inês Schreck, Lisa Soares
Aestreita e sinuosa viela termina num caminho de terra batida, onde se estende a horta de João Correia. Ao fundo ainda se ouve o mugir de duas ou três vacas, mas o som é abafado pelo zumbido constante da VCI e pelo ruído das máquinas, ali ao lado, na construção de um empreendimento de luxo. Ramalde é uma freguesia do Porto onde cabe um pouco de tudo. Ainda tem zonas rurais que, por enquanto, escaparam ao betão, tem zonas de luxo onde o metro quadrado de um apartamento chega a ultrapassar os dois mil euros, tem milhares de pessoas a viver em bairros sociais e uma enorme área empresarial que à noite se transforma em "discoteca".
"Costumo dizer que é a freguesia dos contrastes", refere Manuel Maio, presidente da Junta de Freguesia, que toma como "exemplo flagrante" a imagem de um lavrador a passear as vacas, perto da Avenida Vasco da Gama, com os "Edifícios do Lago" em pano de fundo. A criação de gado é cada vez mais residual em Ramalde, que chegou a dar pelo nome de "freguesia dos cornos grandes", graças aos bovinos de raça barrosã usados no transporte de mercadorias. No século XIX e início do século XX, as "ramaldeiras" - conhecidas como as mulheres mais bonitas dos arredores do Porto, lembra o historiador Germano Silva - levavam os bois até à Ribeira para distribuir as mercadorias dos barcos pelas pequenas lojas dos arredores. A freguesia abastecia a cidade de carne e os principais mercados (Bolhão e Bom Sucesso) de legumes. Da agricultura sobra, actualmente, uma pequena amostra.
Envolvida pela cooperativa da Prelada e por um empreendimento de luxo que está a nascer, a horta de João Correia, em Requesende, parece um oásis no meio do betão. Aos 74 anos encontra "saúde" nas pencas, alfaces, feijão e outros legumes que semeia e colhe no talhão arrendado. Até ao dia em que alguém decidir concluir o viaduto inacabado da Prelada e executar a ligação viária prevista à Estrada da Circunvalação. O projecto da Alameda da Prelada passa por cima dos poucos campos que restam em Requesende. João Correia mora no Bairro de Francos debaixo do flagelo da droga, um problema transversal a muitos bairros sociais de Ramalde. Na freguesia residem cerca de 53 mil pessoas, sendo que 32% em bairros.
Alguns dos aglomerados estão a ser intervencionados pela autarquia e até se encontram bons exemplos como o de Ilda Sofia. É uma das moradoras de um conjunto de edifícios camarários, perto do Viso, com apenas três andares e um jardim à porta. O JN encontrou-a a cortar a relva, uma tarefa a que se dedica com gosto. O aprimorado jardim contrasta com o "matagal" nas traseiras do prédio.
Desiludida com o desleixo da Câmara, Ilda Sofia encolhe os ombros e lembra que na zona da Boavista está sempre tudo "direitinho". A Avenida da Boavista é precisamente o limite da freguesia de Ramalde e também a zona mais desenvolvida. Perto do estádio do Bessa, há apartamentos de luxo que custam mais de dois mil euros por metro quadrado. Por ali, não há pedaço de terreno livre de construção.
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