Noticiário feito com peças dos cidadãos
Dina Margato
O chamado jornalismo do cidadão, baseado no pressuposto de que qualquer indivíduo pode produzir ou colaborar activamente na notícia, tem ganho projecção com o aumento de ferramentas de edição e difusão. Um telemóvel com câmara pode captar imagens em movimento e através de um blog é relativamente fácil tornar público um conteúdo.
A familiarização com os novos meios tecnológicos e o êxito que o site de vídeos gratuitos YouTube tem tido justificam a decisão anunciada pela estação norte-americana ABC de levar adiante um noticiário composto com imagens e filmes fornecidos pelos espectadores. "I-Caught" (eu apanhei), o seu nome, começará a ser transmitido em Agosto, às segundas-feiras, logo depois das 22 horas, um horário de grandes audiências.
Segundo o site da revista "Variety", uma equipa de profissionais utilizará os vídeos como base das notícias e encaixa-los-á nas várias secções, que vão desde notícias de última hora, reportagens, política, crimes, celebridades e mitos urbanos da web. O material começa a ser recebido por um site criado para o efeito a 12 de Junho.
"O acontecimento que mudou a cobertura das notícias foi o atentado no metro de Londres, em 2005", disse David Sloan, produtor executivo deste novo programa. "Havia muita gente naquele metro que não sabia se iria sobreviver mas mesmo assim começou a filmar o que se passava com os telemóveis".
O passo não é inédito nos Estados Unidos, embora seja pioneiro entre as televisões generalistas. O canal Current TV, que tem como mentor o ex-vice-presidente norte-americano Al-Gore, sustenta-se do conceito da produção do material pelo cidadão. Um pouco por todo o lado, as estações têm criado espaços para a recepção de vídeos nos seus sites. A CNN já o fez e, em Portugal, a SIC promoveu uma iniciativa do género na época dos incêndios.
A produção de notícias pelo cidadão não escapa, porém, à crítica dos teóricos ortodoxos. Exigindo mais rigor para o que a ideia representa, defendem que o público pode fornecer material mas não construir sozinho a notícia, sob pena de não se cumprirem regras nobres da actividade. Também há quem defenda uma posição intermédia e fale na importância desta colaboração. Já os defensores do jornalismo do cidadão vêem-no como uma oposição à tirania dos média e uma forma de mostrar o intervenção do povo. Este deve ainda diferenciar-se do jornalismo cívico, corrente caracterizada pela atenção prioritária a dar ao cidadão em detrimento de outros agentes da notícia.
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