Mogadouro está mais cosmopolita. E acolhe, há anos, uma pequena comunidade asiática, composta por chineses, indianos e paquistaneses, que deixou para trás os conflitos que opõem os países de origem. No lugar da ameaça permanente de uma guerra nuclear entre a Índia e o Paquistão, na pequena vila transmontana existe cooperação e amizade. E, embora de culturas e religiões diferentes - os indianos são hindus e sikh, e os paquistaneses muçulmanos -, vão adquirindo novos hábitos. E nova língua o Português. Na noite de anteontem, os imigrantes de países desavindos, assistiram à primeira aula. Todos juntos. E em paz.
Após um dia de trabalho na construção civil, os quinze cidadão estrangeiros, radicados em Mogadouro há mais de cinco anos, juntaram-se numa sala para aprender a língua e cultura portuguesas, num curso leccionado por Paula Sá e promovido pelo município e o Instituto de Formação Profissional no âmbito do programa "Portugal Acolhe". A iniciativa visa uma melhor integração social dos imigrantes.
Harbans Singh, indiano sikh que funciona como tradutor das duas comunidades, dada a semelhança linguística entre paquistaneses e indianos, garante que, em breve, o Português passará a ser a língua franca. Vontade, pelo menos, não lhe falta "De momento, estou disposto a aprender Português, já que o futuro pode passar pela criação de um pequeno negócio na região, para o qual é fundamental a aprendizagem da língua", declarou ao JN o imigrante indiano. Outro dos seus objectivos é aprender o hino nacional, cuja melodia já entoa.
Do outro lado da sala está o paquistanês Ali Liaqat, que reitera as palavras do vizinho indiano. E garante sentir-se integrado, embora expectante em relação ao futuro, o qual lhe parece, todavia, risonho "Portugal é um país acolhedor", assegura, sorridente.
Se a língua franca de ambos passará a ser o Português, Mogadouro será a nova pátria. E tanto para Singh como para Liaqat, a guerra que arde em Caxemira, território fronteiriço disputado por Islamabade e Nova Deli, é parte do passado. De resto, no quotidiano imperam antes o convívio e a amizade. "É tudo", assegura Liaqat, "uma questão de mentalidade". Claro que os laços de amizade entretanto criados não iludem diferenças que saltam à vista, como é caso da alimentação e a prática do culto de cada uma das comunidades.
Integra ainda o grupo de estudantes do Português um jovem casal de origem chinesa. Um pouco mais reservado, já que a língua de Camões é, ainda, uma novidade. Contudo, para Chen Xiaoya, a sua linguagem são os números, já que é proprietária de uma loja e os algarismos são, para já, a única forma de comunicar com a clientela. As letras virão depois.
E, não tarda, virão também mais imigrantes paquistaneses e indianos. Afluxo que deverá garantir a continuidade do programa "Portugal Acolhe".