Silêncios e protecções!
Honório, Novo, Deputado , do PCP
Por razões absolutamente contrárias dois factos recentes merecem uma reflexão especial.
Um deles, o debate parlamentar sobre a presidência da União Europeia que Portugal vai assumir no mês de Julho, primou pela total ausência de referências na comunicação social escrita! Quase três horas durante as quais se discutiram temas para poder incluir na agenda europeia, passaram completamente em claro na imprensa! Fica-se é sem saber se o silêncio resultou de uma infeliz coincidência editorial ou se foi motivado por um certo incómodo causado pelo facto de alguns, "levando à letra" a nova lei de acompanhamento do processo de integração, terem introduzido numa discussão normalmente retórica uma recomendação política concreta para que o Governo adoptasse certos temas durante a presidência portuguesa da UE.
Será que - para a imprensa - não tem interesse que se leve a debate europeu uma alteração de estatuto do Banco Central, impedindo que continue a aumentar taxas de juro e a esquecer o crescimento económico e o emprego? E não teria importância uma eventual flexibilização do Pacto de Estabilidade para economias periféricas mais necessitadas de investimento? E será justo Portugal alinhar no jogo do"faz de conta" que é possível e legal entrar em vigor um designado "Tratado Constitucional" rejeitado na França e na Holanda? E seria ou não oportuno que o Governo incluísse na sua presidência a adopção de novas políticas para as regiões ultraperiféricas, a adopção de critérios mais justos no apoio às produções agrícolas mediterrânicas, ou a salvaguarda das zonas económicas exclusivas?
Um outro facto, ao invés, mereceu uma atenção mediática inversamente proporcional à sua mais valia nacional. Ao atacar Maria José Morgado, Paulo Portas visou criar um facto político com dois objectivos dar corpo ao levantamento interno contra Ribeiro e Castro, provando que com o estalar de um dedo consegue fazer virar para si todos holofotes; dar continuidade à sua antiga urticária contra uma mulher afastada do combate ao crime durante os tempos em que co-governava (?) o país. O ataque nada tinha, portanto, a ver com o que era enunciado já que Portas bem sabe que a cidadania ainda não morreu e nem só quem colabora com o CDS tem direito ao bom nome em Portugal.
Para o facto mesquinho e vazio, toda a protecção e desvelo; para o que tinha interesse nacional, o silêncio e o desprezo. Critérios que mostram bem o estado em que está o País e a (dita) sociedade moderna!...
Honório Novo escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras honorio.novo@sapo.pt
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