A direcção da Liga dos Combatentes (LC), que tem a missão de cuidar de corpos e sepulturas de militares, está preocupada com as consequências da operação de resgate dos três pára-quedistas que ficaram enterrados na Guiné.
"Não abramos uma caixa que nunca mais conseguimos fechar", adverte o vice-presidente da LC, Lopes Camilo, tendo em conta que permanecem enterrados nas antigas colónias, pelo menos, 1250 militares portugueses (há mais 2750 soldados do Exército português ali sepultados, mas haviam sido recrutados entre a população local), em quase 400 lugares.
O presidente da LC, Chito Rodrigues, critica mesmo a iniciativa dos pára-quedistas por, alegadamente, "acirrar" as famílias com um problema que estas, interiormente, já haviam resolvido.
Aparentemente incomodado com a imagem que o resgate dos restos mortais dos pára-quedistas pode dar da LC, Rodrigues exalta o trabalho da instituição. "Há 83 anos que a LC se preocupa com os mortos", sublinha, referindo o esforço por manter a dignidade de 217 talhões e 80 ossários no país, com 3092 corpos inumados, ou de 1800 sepulturas de combatentes portugueses da 1ª Grande Guerra Mundial no cemitério de Richebourg, França.
O problema dos soldados enterrados onde Portugal travou a guerra colonial é de solução mais difícil. "Durante anos, após a nossa saída de Angola, Moçambique e Guiné, a situação política desses países impediu qualquer veleidade no tratamento do problema", começa por justificar o presidente da Liga.
Em 2003, foi reactivado um grupo de trabalho, através do qual a Liga, com representantes do Governo e dos estados-maiores das Forças Armadas, estabeleceu um programa plurianual (2005-2008). O programa "Conservação de Memórias" dispõe de 150 mil euros por ano, apesar da dimensão do problema ter vindo a crescer, com o apuramento de novos casos de militares enterrados no estrangeiro.
Neste contexto, a LC até se diz disponível para apoiar famílias que se manifestem interessadas na trasladação dos seus entes, mas frisa que a prioridade é "conseguir, em Angola, três ou quatro cemitérios onde se possam reunir os corpos espalhados por diferentes locais - a mesma coisa em Moçambique e na Guiné". E se um pai que souber da trasladação das ossadas do filho de Guidaje para Bissau, por exemplo, pedir que as tragam para Portugal? "É um problema da família e do Estado, não é um problema da LC", responde Rodrigues.
Camilo sublinha antes que, "para se mexer nos corpos, é preciso ter-se a certeza de quem lá está". E o general conta que até já foi contactado por famílias "interessadas em saber o que se passava com seis militares". "Na Guiné, fui ao sítio onde, segundo os meus registos, se encontrava determinado militar, e levava mais vinte nomes. Não identifiquei ninguém, não sei onde estão as campas", conta, confessando que ainda não tem solução para esses seis casos "É um problema que ainda temos de ver como é…". NM