Em 28 de Dezembro de 2006, Coimbra acordava sobressaltada com um alerta declarado pelo presidente da Câmara, dando aos moradores da Rua Direita e imediações 48 horas para abandonar casas e estabelecimentos comerciais por risco de derrocada. A queda de dois prédios numa outra zona da Baixa, pouco tempo antes, viera a calhar. A Baixa estava a cair! Através de um pânico suscitado a preceito, a autarquia lançava uma cortina de fumo sobre a situação da Baixa e a intervenção profundamente contestável que, com a Metro Mondego (MM), preparava há largos meses.
Tratava-se, na realidade, de legitimar as demolições a levar a cabo pela MM para abrir o canal do metro de superfície, operação que rapidamente se transformou no arrasar de todo um quarteirão. Ora, a Baixa não está a ser arrasada nem por causa do metro, nem porque esteja realmente a cair, apesar do avançado estado de degradação dos prédios. A Baixa vem abaixo porque não há qualquer intenção de evitar que assim aconteça, o que seria possível com as soluções técnicas existentes. A Baixa vem abaixo porque se quer fazer dinheiro em construção e especulação imobiliária, à custa do incontestável valor patrimonial, cultural e sociológico da cidade medieval. O alerta emitido pela Câmara foi, aliás, "encomendado" pela MM com o fim de desalojar imóveis que nada têm a ver com o canal do metro, mas cuja aquisição e demolição parece servir exclusivamente o objectivo de arrecadar mais-valias. Pelo menos metade destes edifícios já foi demolida.
É importante sublinhar que a Baixa necessita urgentemente de uma recuperação e reabilitação de qualidade, segundo os mais elevados padrões internacionalmente reconhecidos. Por isso, a intervenção propositadamente incompetente da MM merece a mais veemente oposição. O que está em marcha não é um processo de reabilitação urbana digno desse nome, mas, aparentemente, a venda daquele espaço aos parceiros privados da conivente SRU, com a cumplicidade da Câmara.
Arrasar, para depois erguer, cópias de fachadas é um conceito ultrapassado de reabilitação urbana, que não interessa a uma cidade que candidata o seu Centro Histórico a Património da Humanidade. Assim se faz tábua rasa do longo trabalho desenvolvido pelo departamento de Arquitectura da Universidade sobre a Baixa e a inserção do metro, projecto de inegável interesse para a cidade. Tristemente, a mesma Universidade ficará ligada à destruição da Baixa através do ITeCons, cujos relatórios legitimam a inaceitável argumentação da MM e da Câmara, segundo a qual se arrasa apenas o que vai cair. Afirma o ITeCons que a contenção dos edifícios é demasiado onerosa, sem ponderar estes custos em relação ao valor patrimonial e cultural da zona, algo que não cabe a especialistas em construção, mas sim à autarquia. Esta pretere um estudo mais amplo encomendado à UC, o SIGURB, bem como o Departamento de Arquitectura, em favor do ITeCons, seguindo uma política inaceitável, do ponto de vista da Universidade, que consiste em seleccionar os pareceres científicos mais úteis à prossecução de políticas municipais previamente decididas.
Numa altura em que a valorização académica de projectos que trazem dinheiro à instituição ameaça tornar-se doutrinária, um facto como este deveria fazer soar o alarme.
Preservar e reabilitar com qualidade é, pois, muito caro. Para a cidade? Ou para os parceiros que se perfilam para a SRU e que, curiosamente, são também associados do ITeCons e os habituais "sócios" da autarquia em todos os projectos de vulto? A Câmara decidiu claramente a favor destes últimos.
catisabel.martins@sapo.pt