"Já percebi que a água e o gás são importantes numa casa mas se muitas vezes nem tenho dinheiro para o gás, só bebo água?". Rosa Maria lança a pergunta, num tom jocoso, provocando a risada geral na cave pouca iluminada do Centro Comunitário de Povos, o bairro social mais antigo no concelho de Vila Franca de Xira. Apenas Elsa Braga não se ri. Cabe àquela assistente social liderar a aula de 18 mulheres carenciadas do bairro de Povos, que frequentam o primeiro curso de formação denominado 'A Mulher e o Quotidiano", que mais não é do que a possibilidade daquelas alunas aprenderam o que nunca lhes foi transmitido pela família ou na escola. Na próxima terça-feira é a grande festa de despedida e as mulheres regressam ao seu dia-a-dia. Com uma certeza vão aproveitar os novos conhecimentos para mudar de vida.
Durante quatro meses e meio aprenderam a cozinhar com o pouco que têm no frigorífico - aquelas que o têm -, com o que o escasso rendimento familiar permite comprar ou aproveitando as sobras de outras refeições. Tiveram aulas sobre higiene, violência doméstica, contracepção ou o comportamento dos adolescentes. E acima de tudo aprenderam algo sobre os afectos, aqueles que muitas mulheres reconheceram ao JN nunca terem recebido dos pais, companheiros ou filhos.
"No meu tempo o melhor que as crianças comiam era as sopas de cavalo cansado", reconhece Rosa Maria, de 69 anos, líder de um clã de 10 filhos, 27 netos e três bisnetos. "Mas as coisas não estão melhores", admite, enquanto aprende como aproveitar sobras. "Isto é tudo importante porque há coisas de que a gente nem faz a mínima ideia", adianta, por outro lado, Fátima Matias, com 42 anos.
Se Carolina Gonçalves é a anciã do grupo, Margarida Fernandes é a mais nova e o curso á apenas uma forma de ocupar os dias de desemprego.
"Destruíram-me a vida"
"Trabalhei durante três anos como auxiliar de acção médica no hospital e ao fim de três anos não me passarem a efectiva, mandaram-me embora e destruíram-me a vida", desabafa Margarida, de 33 anos.
"A doutora Elsa é um anjo", responde, do outro lado da sala, Alda Gândara, reformada da CP, que perdeu a casa num incêndio e foi realojada provisoriamente em Povos.
O curso surgiu com base no trabalho de intervenção comunitária e social, que tem vindo a ser desenvolvido naquele bairro municipal, e foi ministrado em regime modular, com a inclusão das experiências pessoais das formandas. Uma iniciativa que se enquadra no âmbito do Ano Europeu da Igualdade de Oportunidade para Todos (2007).
Segundo curso
"Estas mulheres têm um acompanhamento contínuo, tanto em gabinete como no domicílio. E a ideia foi ter um espaço das 16 às 18 horas onde se pudessem reunir e realizar diversas iniciativas, tendo no final direito a um certificado", explica Elsa Braga.
Entretanto, de acordo com a técnica que colabora ainda na gestão do parque habitacional, um segundo curso com outras temáticas está a ser preparado.
"Enquanto Centro Comunitário lidamos com problemas específicos das mulheres, estando muitas delas desocupadas em casa, e era preciso mostrar-lhes que podem mudar de vida", salienta.