Coco Montoya é, provavelmente, o guitarrista mais conhecido da segunda edição do Douro Blues, que começou anteontem, no Auditório Municipal de Gaia. Indiferente à fama, Montoya descreve-se como músico profissional. Simplesmente. "É assim que ganho a vida; é o que sei fazer". E é o que tem feito nas últimas três décadas, após ter conhecido o incontornável Albert Collins quando tinha pouco mais de 20 anos. "Fomos apresentados por um amigo comum, mas nem sabia quem ele era".
Com a mesma simplicidade, a sua guitarra ao lado e um café duplo, conta que reencontrou Collins num pequeno bar em Los Angeles (EUA), pouco depois do primeiro contacto. Naquela altura, tocava ainda bateria e Collins assistiu a uma das suas pequenas actuações. Passado um ano, telefonou-lhe porque precisava de um baterista. "Eu pensei que teria tempo para pesquisar o trabalho dele, conhecer a sua música e, por isso, disse que sim. Então, disse-me para fazer as malas porque estaria em minha casa em menos de nada". Duas horas mais tarde, Montoya estava na estrada, em digressão com a banda de Albert Collins.
Depressa esta relação haveria de ser muito mais do que profissional. "Foi um pai, aconselhou-me - e certificou-se sempre de que eu telefonava à minha mãe três vezes por semana". Mas Coco Montoya estava ainda longe de ser um animal do blues. "Eu sentia que não estava à altura e disse-lhe isso, ele respondeu-me que se eu quisesse aprender, se eu sentisse isto com o coração, estaria disponível para guiar-me".
Primeira guitarra aos 13
Albert Collins ensinou Montoya a sobreviver até hoje, devendo-se a ele o facto de ser guitarrista. "Eu brincava com a guitarra desde os meus 13 anos, mas pouco sabia. É por isso que toco com ela ao contrário e virada para baixo. Ninguém me disse que o que fazia, fazia mal. Um dia, Albert viu-me com uma das suas guitarras e, mais uma vez, interferiu. Disse-me que tinha de aprender a ouvir".
Montoya é único na forma como segura a guitarra e, apesar das muitas críticas que recebeu, persistiu. "O blues é sentimento, é por isso que é uma linguagem tão internacional. Foi essa a grande lição de Collins. O blues é muito mais coração do que técnica, mas eu incentivo os mais novos a estudarem", ressalva. "Mas sim, ninguém acreditava em mim, no início". Ri-se, entusiasma-se e desfia as imensas histórias vividas com Collins.
O lado profissional desta parceria haveria de acabar nos anos 70, quando o cenário musical muda drasticamente nos EUA. Ambos ficaram sem trabalho. Montoya conta que se viu obrigado a arranjar um emprego e a adaptar-se à ditadura do relógio, pensando mesmo que os seus dias como músico tinham acabado. Até que, mais uma vez, por puro acaso, conhece John Mayall. Este ouviu-o tocar num ambiente informal e convidou-o para a sua banda, The Bluesbreakers, grupo que Eric Clapton já integrara.
Dez anos volvidos, Montoya decide arriscar-se a solo e de lá para cá gravou vários álbuns, sendo o último, "Dirty deal", de 2007. Ao mesmo tempo, tem corrido Mundo, porque "o blues é algo a que qualquer pessoa pode ligar-se". Por outras palavras, "quando um bebé chora, a gente compreende. O sentimento não precisa de língua". Para o facto de deslocar-se do outro lado do Mundo só por uma noite, a explicação é tão simples como a forma como fala. "É o que faço, é o que sei fazer". Os olhos deste animal do blues continuam a brilhar aos 55 anos.