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Portugal ainda é um paraíso para as lontras de água doce

João Prudêncio, Luís Forra

Ao contrário do que possa pensar-se, as duas lontras do Oceanário de Lisboa, "Eusébio" e "Amália", não são as únicas de Portugal. Há milhares nos rios do país e, ao inverso de outras espécies europeias, a "portuguesa" não está em perigo de extinção. E só não as vemos porque... elas são preguiçosas e passam o dia a dormir!

Enquanto assiste a mais uma refeição de filetes de peixe do último espécime chegado ao Zoomarine para recuperação, o biólogo Élio Vicente, entrevistado pela Agência Lusa, vai garantindo que, ao contrário do que acontece no Norte e Centro da Europa, a lontra terrestre (única existente cá) está bem e recomenda-se.

"As pessoas não têm contacto com estes animais porque são muito furtivos e solitários, caçando de noite e dormindo de dia". E quando aparecem, são confundidos com o furão ou a doninha, mais populares. O certo é que a espécie existe, numa proporção de um animal por cada quilómetro de curso de água, em 80% do território rural português. Um peso demográfico difícil de preservar, nas palavras do zoólogo Pedro Beja, que entre 1987 e 1994 estudou animais solitários ao longo da costa alentejana. Uma população razoável, como a que habita em Portugal, "pode ser drasticamente reduzida em dez anos", devido a causas que muitas vezes não são imediatamente detectadas.

Foi o que aconteceu no centro e leste da Europa, na segunda metade do século passado, quando os metais pesados e, sobretudo, as altas concentrações poluentes de PCB (substância usada no fabrico de plásticos) provocaram o quase desaparecimento da espécie. O ambiente razoavelmente preservado em muitos riachos e os ventos não poluídos do Atlântico contribuem para que aquela espécie tão frágil não esteja em extinção em Portugal.

A acção directa do homem, através da caça ou da tentativa de domesticação, parece não constituir risco para aquele mamífero. Já a acção indirecta, como a poluição, pode ser bem mais perigosa, diz Pedro Beja.

Homens, esse bicho...

Com a sua ainda anónima lontra de quilo e meio - chegada ao Zoomarine há menos de 15 dias - nas mãos, Élio Vicente sabe que o maior perigo para estes animais é habituar-se à espécie humana. "Quando lhes damos comida, disfarçamo-nos sempre. Pomos uns oleados amarelos e disformes para eles não nos identificarem como humanos. Só ficamos vestidos normalmente quando lhes vamos fazer coisas de que não gostam, como dar-lhes injecções, medi-los, pesá-los", sussurra. "Não queremos que eles se afeiçoem à espécie humana. Queremos que eles vejam em nós uma ameaça".

Desconfiada da presença de humanos, a outra lontra do Zoomarine, "Einstein", pesa cinco quilos e já come peixe vivo. E só aguarda por uma melhor adaptação às condições selvagens para voltar à natureza.

Ninguém conhece ao certo as histórias destes dois animais. Sabe-se apenas que foram entregues no Centro de Reabilitação de Monsanto e que o próprio Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade pediu ao Zoomarine que os recuperasse. Mas Élio Vicente alerta para os perigos das más interpretações. "As pessoas vêem-nos, ainda bebés, nos seus ninhos e como não vêem a mãe por perto pegam-lhes para os darem às autoridades. Ora, muitas vezes, a mãe foi caçar ou pescar e fica a aguardar que as pessoas se afastem".

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