Vestígios de sangue de uma pessoa morta, presumivelmente da pequena Madeleine, foram descobertos numa parede do quarto ocupado pelo casal McCann, no apartamento do "Ocean Club", em Lagos, de onde a menina desapareceu, no dia 3 de Maio. O facto situa a morte da criança dentro do apartamento, mas não é certo para os investigadores que se tenha tratado de homicídio, apesar de, e de acordo com os elementos recolhidos pelos peritos forenses, alguém ter tentado limpar os referidos vestígios. Pelo contrário, o JN sabe que a explicação encarada como mais provável nesta altura para explicar a morte de "Maddie"- já dada como praticamente certa - é de que se tenha tratado de um acidente.
As novas provas terão sido descobertas no início da passada semana, graças ao uso de cães ingleses especialmente treinados para detectar vestígios biológicos de pessoas mortas (ver caixa), independentemente do período de tempo passado desde que foram deixados. Os investigadores estão convencidos de que o sangue pertence a Madeleine, mas aguardam ainda o resultado de análises mais detalhadas para que a suspeita seja confirmada.
Durante o dia de anteontem e parte da madrugada de ontem, aliás, o apartamento dos McCann continuou a ser submetido a intensos exames pelos técnicos da PJ, com recurso, nomeadamente, a fontes de luz ultravioleta. Numerosas fotografias foram igualmente tiradas, como o JN presenciou.
Novos interrogatórios
A descoberta lançou uma perspectiva completamente nova sobre o caso e poderá vir a fazer centrar as investigações no círculo familiar da criança e nos amigos mais próximos dos McCann. A possibilidade de novos interrogatórios a estes protagonistas do caso não está posta de parte.
Quase 100 dias depois do de-saparecimento da menina inglesa, enquanto os pais jantavam num restaurante situado a cerca de 50 metros do apartamento, a investigação do caso parece caminhar para o seu desfecho. Claro é já para a Polícia Judiciária que a morte da criança aconteceu no quarto. Mas haverá ainda muitas incógnitas quanto ao destino dado ao corpo.
As intensas buscas realizadas nos últimos dias no jardim da casa de Robert Murat, o único arguido do caso, eram uma aposta para esclarecer este aspecto que, ao que tudo indica, não terá tido qualquer resultado. No entanto, o JN sabe que as buscas irão intensificar-se nos próximos dias, em vários locais. Muitos deles, já anteriormente inspeccionados, serão de novo analisados pelo cão trazido pelos ingleses.
Caso Joana
Mas a descoberta do corpo pode até nem ser determinante para o encerramento do caso. Basta recordar o caso de Joana, a menina de oito anos desaparecida em Setembro de 2004, da aldeia da Figueira, Portimão. O corpo nunca chegou a aparecer, mas a mãe da criança, Leonor Cipriano e o irmão, Carlos, acabaram por ser condenados, respectivamente, a 20 anos e quatro meses e a 19 anos e dois meses de prisão.
Contaminação afastada
O JN sabe também que uma das principais preocupações dos investigadores prendeu-se com a eliminação de quaisquer dúvidas sobre uma eventual contaminação dos vestígios recolhidos, o que terá sido conseguido.
Desde o dia em que Madeleine desapareceu, dezenas de pessoas passaram pelo apartamento dos McCann, desde polícias, família, amigos e empregados da unidade hoteleira e até cães.
Na fase inicial da investigação, mais de três centenas de vestígios biológicos foram recolhidos pelos elementos da Polícia Científica da Judiciária e posteriormente analisados no Instituto de Medicina Legal.
Mesmo depois de todos os trabalhos dos inspectores no apartamento terem sido dados por concluídos, mais gente já por lá andou. Desde a semana de 11 de Junho que o espaço tem estado a ser alugado a outros casais para férias pelo "Ocean Club".
O JN sabe que qualquer hipótese de contaminação dos vestígios recolhidos foi definitivamente afastada.
Cães que distinguem vestígios de pessoas mortas
São treinados para detectar vestígios biológicos e capazes de distinguir se pertencem a uma pessoa morta ou viva. Os cães que os polícias ingleses trouxeram para a praia da Luz conseguem localizar corpos ou até mesmo um esqueleto. A idade dos vestígios também não é problema. Por isso, têm capacidades de grande importância. "São cães que foram treinados apenas para essa função", explicou fonte da GNR, garantindo que esta missão "não é específica de uma raça canina", mas "tem tudo a ver com o treino que é dado". Em Portugal, não existem ainda animais treinados para este tipo de acções, mas, segundo a fonte, "esse é um objectivo futuro". Os cães pisteiros, utilizados pela GNR e pela PSP, são treinados apenas para detectar odores de pessoas. "A pessoa pode estar viva e é mais fácil o cão detectar. Se estiver morta, o animal só consegue detectar o cheiro, caso a morte tenha sido recentemente", explicou a mesma fonte. Nas buscas que foram feitas nestes dois dias, ao jardim da casa de Robert Murat, a Polícia inglesa utilizou um cão pisteiro de raça border collie. Para que pudessem avaliar se o solo escondia alguma coisa, foram feitos buracos de meio metro, com recurso a cabos de aço, mas os animais nada terão detectado.
Robert Murat está confiante e continua a alegar inocência
Francisco Pagarete, advogado de Robert, não quis tecer comentários sobre as diligências processuais que decorreram no jardim da Casa Liliana. Contudo, lá foi garantindo que estas "contaram com a colaboração de Robert Murat e da mãe". Parco em palavras, o causídico frisou ainda que o arguido se mostrou sempre "colaborante" e que no final das acções que ali decorreram se mostrava " confiante e satisfeito". Agora, segundo adiantou Francisco Pagarete, Murat aguarda o resultado das deligências "para mais rapidamente provar a sua inocência". Estas diligências poderão determinar a alteração da medida de coacção aplicada a Robert Murat. A Polícia continua a tentar perceber se existe ou não qualquer tipo de ligação entre o luso-britânico e os McCann ou os amigos da família.