Qual era o retrato da rede de infra-estruturas nacional há vinte anos atrás?
Joaquim Ferreira do Amaral | Naquele tempo, há 20 anos, a nossa carência de infra-estruturas era gritante. As pessoas hoje já não se lembram bem do que eram as nossas dificuldades nesse tempo. Falo sobretudo de infra-estruturas de transporte, a ligação entre as cidades do interior e do litoral, de norte a sul. Era uma carência muito grande que tinha como origem o facto de não se terem feito grandes investimentos em obras públicas durante muitas décadas. Por isso foi necessário fazer uma politica de investimento muito decidida. Atacar o problema para o resolver, não simplesmente para se dizer que se ia atacar e encontrar uma solução para ele. Penso que essa politica foi bem conseguida. E pergunto-me também se as pessoas concebiam uma situação em que Portugal não tivesse tido essas infra-estruturas. Pergunto-me o que teria sido do pais se não houvesse auto-estrada Lisboa - Porto, ou se não existisse a Ponte Vasco da Gama?
Acha que temos betão a mais?
Perante este grande ritmo e a pressão de resolver os problemas, as pessoas tiveram a noção de que havia a tal "politica do betão" e que este já seria demasiado. Mas julgo que não houve uma grama que se depositasse numa obra que não fosse inteiramente necessária. Na verdade, no conjunto geral das obras públicas feitas neste período, e fiz as contas na altura própria, o apoio comunitário não chegou a dez por cento. Noventa por cento foram mesmo os portugueses que pagaram. Devemos ter essa noção porque temos muito o costume de nos rebaixarmos. Dizemos que foi tudo feito porque a União Europeia pagou. Não é verdade! Os portugueses pagaram tudo, pelo menos 90% das obras.
Que balanço faz da aposta no betão?
Acho que a chamada "politica do betão" foi na altura uma politica inteligente. Foi uma politica absolutamente necessária. Qualquer pessoa naquela altura teria pensado da mesma maneira. E na minha opinião é também uma politica bem conseguida, o que também não é muito comum em Portugal.
Vozes criticas acusam o betão de ter acumulado demasiado investimento que fez falta a áreas como a educação. Como reage a estas opiniões?
Em Portugal não houve uma opção que dissesse "deixa-se a educação para trás porque agora é a vez das infra-estruturas". Não. Apostou-se nas duas coisas ao mesmo tempo. Talvez uma com mais sucesso do que a outra, mas a aposta foi feita da mesma maneira. Os recursos aplicados na educação foram muito voluptuosos. Se me perguntarem agora em termos teóricos se começava pela educação ou pelo betão, julgo que o ideal é começar pelos dois.
Se voltasse atrás no tempo, mudaria alguma das suas decisões neste?
Não gosto e não posso dizer isto. Provavelmente teria procedido rigorosamente da mesma maneira. Talvez até com mais determinação! Excepto na questão das portagens da Ponte 25 de Abril. Isso não tinha feito, porque acho que fiz a coisa um bocadinho precipitadamente. E foi essa a origem dos males todos. Embora deva dizer que não devo ter feito uma grande asneira porque a partir daí já houve dez ministros das obras públicas e ninguém alterou nada. Mantiveram tudo como estava. Mas a abordagem que fiz do problema - devo dizer - foi um bocado surpreendente, repentina e precipitada. Quanto a isso, eventualmente aprenderia essa lição. Além disso, a única coisa que teria feito diferente seria, talvez, acelerar ainda mais.
De todo o desenvolvimento estrutural, o que é que ficou de fora?
A rede ferroviária portuguesa precisava de ter levado um empurrão. Na altura a minha ideia foi reestruturar toda a rede ferroviária para um comboio de 200 km/h. Seria uma rede moderna e a funcionar e que teria resolvido muitos dos problemas que ainda temos hoje nos transportes. Foi talvez a questão que me deixou alguma frustração. Não se podia fazer tudo ao mesmo tempo. Fizeram-se as emergências nos comboios, sobretudo nos transportes suburbanos. Não se fez aquilo que era um lançamento estratégico para o futuro mudar o modo de transporte em Portugal de rodoviário para ferroviário.
Se a torneira de Bruxelas fechar, Portugal deixa de ser capaz de fazer grandes obras públicas?
O facto de haver, com certeza, um abrandamento da subsidiação de fundos comunitários no futuro, não significa obrigatoriamente uma incapacidade financeira da nossa parte para fazer as infra-estruturas que precisamos. Vamos ser capazes de o fazer na mesma, mesmo que tenhamos os fundos mais reduzidos. Naturalmente gostamos muito de os ter! Mas vamos ser capazes, porque há realmente um campo novo que é a entrada dos privados.