Durante 72 anos, João André aguardou por poder voltar aos bancos da escola que abandonou com 11 anos, quando a pobreza familiar, em Salvaterra de Magos, o forçou a permanecer apenas com a quarta classe. Agora, aos 83 anos, viúvo e sem filhos, tornou-se o aluno mais velho em Portugal a concluir o nono ano de escolaridade, na Escola Profissional de Salvaterra de Magos, no âmbito do programa Novas Oportunidades.
"Ninguém me pára agora e ainda vou ser doutor. Já disse à minha professora que este mês de Setembro quero ir tirar o ensino secundário e aprender melhor a mexer na Internet", garante mestre André, nome pelo qual é mais conhecido naquela localidade ribatejana, enquanto mostra orgulhosamente o trabalho final que lhe garantiu a obtenção do tão ambicionado diploma.
Começou nas obras
A adolescência e a juventude dedicada à construção civil e o meio século como funcionário da Raret - a rádio Norte-Americana localizada em Salvaterra de Magos e que emitia para os antigos países comunistas do Leste - a par da sua paixão pelo artesanato, foram alguns dos conhecimentos validados por aquele pólo escolar, abrangido pelo processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências, que se destina a aumentar os níveis escolares da população adulta.
"Uma amiga falou-me naquilo. Fiquei com a pulga atrás da orelha, encavalitei-me na bicicleta e fui à escola perguntar se com a minha idade me aceitavam. Acabei por ficar e toda a gente gostou de mim", explica o octogenário que, ainda assim, não se livrou de frequentar aulas de informática, cidadania ou matemática.
A assiduidade e o esforço acabaram por ser realçados pelos docentes no diploma alcançado.
"Já entrei tarde na escola primária porque havia discriminação e era só para os filhos dos 'senhores'. Ajudava o meu pai, que era um pobre trabalhador do transporte marítimo entre Salvaterra e Lisboa", relata.
Professor bêbado
"Tínhamos de saber tudo na ponte da língua só que o professor era bêbado e às vezes íamos à procura dele para dar aulas", acrescenta.
Casou aos 22 anos e após breve passagem por Lisboa fixa-se na terra natal, de onde nunca mais saiu.
Aos 50 anos ainda tentou tirar o quinto ano de escolaridade mas desistiu devido à disparidade de idades em relação aos restantes alunos. Desde de que se reformou, dedica-se por inteiro ao artesanato, à poesia e ao desporto. Na companhia de um professor da escola que frequentou, percorre três vezes por semana o concelho numa bicicleta.
"Agora sonho é com o 12º ano. Falar Inglês e Francês. Trabalhar com o computador. Sabia que o computador é uma janela aberta para o mundo com 360 graus e, ainda por cima, corrige-me os erros?", questiona mestre André.
Nuno Miguel Ropio