Vive em Portugal há 10 anos, deixando no Brasil uma carreira como jornalista. Cá, tem-se dedicado ao tema da Televisão Digital Terrestre, cujos concursos foram lançados em Fevereiro. Um dos seus alertas é sobre a lacuna da TDT e os telemóveis
Não há volta a dar-lhe. A partir de 2012, quem quiser ver televisão terá que o fazer de forma digital porque o sistema actual, analógico, vai ser desligado. Mas a introdução da Televisão Digital Terrestre em Portugal não vai ser fácil, a começar pela obrigatoriedade de compra de um descodificador. Os pressupostos do concurso lançado pelo Governo já são conhecidos e são analisados, pelo investigador da Universidade do Minho, Sérgio Denicoli.
Jornal de Notícias|Que concurso é este, anunciado em Fevereiro?
Sérgio Denicoli|É um concurso dividido em duas partes. O chamado "Multiplex A" dirigido para os canais abertos e onde está inserida a atribuição da frequência de um novo canal, o quinto, e o "Multiplex B a F" sendo que de B e C está reservado para os nacionais e o D,E e F para os canais regionais, tudo em sistema fechado, pago.
Portugal já está atrasado nesta questão…
Está muito atrasado mas ainda dentro do prazo. O concurso de 2001 foi anulado por questões de tecnologia e, diga-se com verdade, por não haver um modelo de mercado estabelecido. Estes atrasos só agora é que foram ultrapassados. Mas até 2012 todas as pessoas terão que ter um descodificador para ver televisão, não há volta a dar.
Prevêem-se incentivos para a compra do descodificador?
Não. Pode ser que o quinto canal seja um bom veículo para a aquisição do aparelho. Se a Controlinveste ou a Cofina, grupos que já anunciaram a intenção de concorrer ao canal livre, tiveram uma programação diferente que seja uma mais valia e onde o digital assuma um papel importante, pode ser que as pessoas comprem o descodificador. O prazo é apertado.
O concurso reflecte aprendizagem em relação ao que se passou noutros países?
Esse mérito ninguém nos tira. Alguns modelos de televisão tiveram um fracasso inicial como em Espanha e no Reino Unido, pelo que esses países tiveram que dar o "litro" para que o modelo fosse aceite pela população. Hoje, são autênticos casos de sucesso. O exemplo do Reino Unido, onde o digital faz já parte do quotidiano das pessoas é mesmo caso único. Aqui ao lado, a questão é mais complicada por causa do impacto da televisão regional que é muito forte. Em Portugal, metade da população subscreve a televisão por cabo. A TDT será direccionada para a outra metade, curiosamente a mais pobre e a mais afectada porque vai ter que ter um descodificador sem qualquer incentivo estatal.
Quem vai vender esse descodificador?
Será definido por concurso público. Será apenas uma a vender. Este aparelho vai converter o sinal em digital, é uma espécie de set-top-box que servirá tanto para os canais abertos como para ver os canais pagos.
Vai ser uma tecnologia com várias ofertas?
Vamos ter alguns serviços de interactividade, tais como a possibilidade de gravar a programação ou de a exibir no ecrã. Isto é, as pessoas podem ver os programas que lhes interessam quando quiserem. Mas, sem querer estar a fazer o papel de advogado do diabo, lembro que também se dizia que as cassetes de vídeo iriam revolucionar o mercado televisivo.
Mais interactividade?
Será limitada. A interactividade pressupõe a existência de um canal de retorno e que nós, telespectadores tenhamos um canal para podermos enviar informações para essa emissora.
Lacunas da lei?
A inexistência de qualquer referência à televisão portátil, isto é, a televisão vista através dos telemóveis. Não há nada sobre isso e é estranho porque esta é uma questão importante.