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Maradona por Kusturica

Almiro Ferreira

Olha, que dois! Dois artistas face a face, unha e carne, a singular convergência de talentos, iguaizinhos na extravagância, na paixão e no génio. E quem mais do que o excêntrico engenho de Emir Kusturica para compreender e descodificar o explosivo enigma que é Maradona? Após três anos de rodagem, eis "Maradona por Kusturica", documentário que será projectado pela primeira vez no próximo Festival de Cannes. Ou como o cineasta revela a intimidade integral e nua do homem por detrás do mito do futebol.

"Maradona por Kusturica" não concorre à Palma de Ouro. Será exibido fora do cartaz de competição, mas será, de certezinha absoluta, uma das maiores atracções da 61.ª edição do Festival de Cannes, que decorrerá entre os próximos dias 14 e 25. O filme é a celebração da incrível história de Diego Armando Maradona, o herói dos estádios, o deus vivo do futebol, artista de génio, o campeão do povo argentino, ídolo do Mundo inteiro. E modelo de gerações, apesar de todas as convulsões e de todas as derrapagens de uma vida tumultuosa.

E é muito da exposição desse homem em debate, em luta contra ele próprio, contra a maldita cocaína, que Kusturica faz a narração da viagem de vida de Maradona. De Buenos Aires a Nápoles, de Barcelona à Cuba do amigo Fidel, o cineasta bósnio retrata a vida de uma personagem fora do comum, das origens humildes à notoriedade mundial, da fulgurante ascensão à queda às profundezas. É um documentário único sobre "o jogador do século", filmado pelo seu maior fã, como se apresenta o próprio cineasta.

O realizador e o futebolista, o cigano e El Pibe de Oro, não se cansam de mostrar a admiração que nutrem um pelo outro. Convidado para o "show" televisivo de Diego, em 2005, Emir foi apresentado como "o realizador de génio", "um irmão". Nesse mesmo ano, por ocasião da Cimeira das Américas, Kusturica juntou-se às manifestações contra a visita de George W. Bush à Argentina. E filmou Diego em pleno combate político "Fiquei impressionado pela sua visão do Mundo, pelo seu humor e pelo seu humanitarismo", afirma o cineasta.

Cannes e o festival de cinema nem são novidade para Maradona. E muito menos para Kusturica, já premiado com duas Palmas de Ouro - "O pai foi em viagem de negócios" (1985) e "Underground - A história de um país" (1995). Em Maio de 2005, Diego foi ver o festival, a convite do amigo cineasta, que era presidente do júri. Juntos, passaram noites loucas de festa e de desatinos, os mesmos desvairos que cimentaram uma sólida amizade. Até hoje. Ainda recentemente, em Fevereiro, durante o concerto da banda "No Smoking Orchestra", em Madrid, Maradona subiu ao palco e dançou com o baixista Emir, para delírio da multidão.

Foi desta química entre duas almas gigantes e gémeas, rebeldes e politicamente incorrectas que nasceu a tamanha cumplicidade umbilical. Um nasceu, há 45 anos, nos bairros de lata de Buenos Aires, para se tornar uma lenda do futebol. Outro viu o mundo e cresceu em Sarajevo (24/11/1954), num país cheio de cicatrizes de guerra, para se tornar escritor, produtor, cineasta, actor, baixista da "No Smoking Orchestra"… Duas almas irreverentes, unidas no filme sobre o extraordinário passado e presente de Maradona. O resultado é uma travessia viva, caótica e rica em emoções. E musical, com Manu Chao a cantar "La Vida Tombola", tema dedicado a Maradona pelo cantor francês e activista político, outro que tal, furioso militante antiglobalização.

Mas, afinal, o que faz de Maradona uma personagem do cinema? "Ele é um enternainer incrível. Nasceu para o show. Se Andy Warhol tivesse vivido na nossa época, não teria feito as pinturas de Marilyn, mas, sim, as de Diego. E se ele não tivesse sido futebolista, teria encontrado outro meio para ser uma estrela. E teria conseguido. Maradona é o maior ícone dos últimos 20 ou 30 anos. E não é desses de popularidade fabricada pelos media, pela Coca-Cola ou pela Pepsi, como os jogadores de agora. Hoje, já nem se consegue mijar sem se ver uma publicidade à Coca-Cola ou à Pepsi", responde o próprio Kusturika, ele que também esteve prometido a uma carreira de futebolista, mas que abandonou para estudar cinema na Academia de Milos Forman, em Praga.

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