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Ciclo de cinema para recordar Maio de 68

João Antunes

Pode não ter mudado o mundo. Mas as movimentações ocorridas em Paris, durante Maio de 1968, mudou certamente a forma como olhamos e pensamos o mundo em que vivemos. Da política à filosofia, da educação à cultura, o tão atribulado século XX divide-se certamente entre o antes e o depois de Maio de 68.

O cinema, desta vez, não foi apenas um reflexo do que se passou, ou uma forma de a posteriori reflectirmos sobre o que mudou ou não. Em Maio de 68, o mundo do cinema francês foi também protagonista, participante directo dos acontecimentos, mesmo uma das molas que fez despertar as consciências e levar as pessoas para a rua.

Alguns meses antes, o ministro da Cultura, André Malraux, ameaçou retirar os fundos à Cinemateca Francesa, fundada e presidida desde sempre pelo mítico Henri Langlois, cujo papel fora determinante na formação cinéfila da geração de críticos e futuros cineastas dos Cahiers du Cinèma e da Nouvelle Vague francesa.

O apoio e as manifestações destes nas ruas foram uma espécie de ante-câmara de Maio de 68, cujo principal reflexo no cinema foi o cancelamento, já depois do arranque, do Festival de Cannes e o estabelecimento dos Estados Gerais do Cinema.

Nos próximos cinco dias, o Instituto Franco-Português exibe um ciclo de cinema dedicado a este período, com alguns filmes rodados à época e outras obras que, mais tarde, reflectiram sobre este período. A acompanhar o ciclo estarão, entre outros, o director de fotografia Jacques Loiseleux, que participou activamente no movimento e integrou o Grupo Medvedkine e o colectivo SLON, Romain Goupil, realizador que na altura participou nos acontecimentos como estudante e mais tarde realizou "Mourir à Trente Ans", curiosamente premiado em Cannes, em 1982, e o português Rui Simões.

Com sessões a decorrer ao fim da tarde e todas as noites, quem quiser permanecer nas instalações do Instituto Franco-Português poderá apreciar um prato original, inspirado pelas palavras de ordem de Maio de 68. O programa abre hoje à noite, com o filme "Loin du Vietnam", do colectivo SLON (Société de Lancement des Oeuvres Nouvelles), onde se parte do princípio de que os conflitos laborais franceses seriam um reflexo de uma luta mais vasta contra o imperialismo americano, de que a guerra do Vietname seria o exemplo mais mediático.

Do programa, que inclui títulos como "A Bientôt, J'Espère", "Classe de Lutte", "Les LIP, L'Imagination au Pouvoir", "L'An 01" ou "Le Droit à la Parole", destaca-se a exibição, na próxima quinta-feita, às 19horas, de um filme de Jean-Luc Godard inédito entre nós. Realizado logo em 1968, inaugurando a fase mais militante da obra do realizador, "Un Film Comme les Autres" intercala imagens recolhidas nas ruas, nas fábricas, nas escolas, com uma reflexão do autor, apenas algumas semanas após os acontecimentos de Maio, sobre o que correu mal no que se classifica como "revolução falhada".

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