Brandoscostumes
Por outras, palavras, Manuel, António, Pina
Os números são assustadores na sua brutal neutralidade só nos três primeiros meses deste ano foram assassinadas 17 mulheres, vítimas de maridos e companheiros, na "coutada do macho latino" (a expressão, famosa, é de um acórdão do Supremo e serviu em tempos de justificação à atenuação da culpa de um violador). Além destas, segundo as contas da UMAR, outras 11 escaparam, mais ou menos maltratadas, a tentativas de homicídio. De fora ficam todas as demais formas de violência, dos espancamentos à humilhação quotidiana, que não chegam, por vergonha e por medo, aos tribunais nem à comunicação social. Os partidos de direita preocupam-se muito com a insegurança nas ruas, mas é dentro de casa e da família que se praticam diariamente em Portugal os crimes mais cobardes, sobre as mulheres, sobre as crianças, sobre os idosos, sobre, em geral, os mais fracos e vulneráveis. "Uma casa portuguesa com certeza" continua ainda hoje a ser a da paródia de Neca Rafael à canção de Amália: "A lua atrás da sacada,/ vem espreitar ao postigo,/ a vê-la a levar porrada/ por arrebitar comigo"e não a da "fartura de carinho" e do "amor, pão e vinho" do original. Brandos costumes? Só no modo como aparentemente aceitamos tudo isto sem escândalo e sem um sobressalto de revolta.
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