Terá sido o desespero por não ver o filho há oito meses que levou um homem a entrar, ontem à tarde, no Tribunal de Gaia armado, apontar a pistola à cabeça de uma juíza e barricar-se, sozinho, durante mais de duas horas. Acabou por ser detido pela PSP. A arma usada era, afinal, uma pistola de alarme.
Ainda assim, viveram-se momentos de pânico. Mais um episódio que expõe as fragilidades na segurança dos tribunais, denunciou a Associação Sindical de Juízes Portugueses.
Em Gaia não há detectores de metais e, segundo informou oficialmente a PSP, há dois agentes colocados para garantir a segurança. Só em dias com processos mais complicados há o reforço daquele contingente. Não seria o caso de ontem. Embora devido ao sucedido, o tribunal acabasse tomado por dezenas de polícias. Até o comandante da PSP/Porto, Gomes Pereira, e o director da PJ/Porto, Batista Romão, estiveram no local.
A confusão começou pelas 16 horas. Um homem, aparentando entre 25/30 anos (segundo a PSP), entrou no edifício armado e dirigiu-se ao Tribunal de Família e Menores. Ali, terá entrado no gabinete de uma das duas juízas, ameaçando-a. A magistrada fugiu para a secção onde estão os funcionários judiciais, onde se instalou o pânico. De acordo com testemunhos recolhidos no local, o homem deixou quase todos os funcionários saírem. Ficou apenas uma funcionária e a juíza - a quem o homem terá apontado a arma. "Ele saiu por instantes e nós fugimos", relatou Judite Guimarães, funcionária, lembrando que pediram ajuda a um polícia.
A funcionária recordou, ainda, que a juíza - casada com um juiz também do Tribunal de Gaia, mas das Varas Mistas - disse ao suspeito que o processo em causa não era da sua alçada.
Marco Teixeira, sub-comissário da PSP, confirmou que, na origem do sucedido, estiveram problemas relacionados com um processo de regulação parental. O tribunal foi evacuado e criado um perímetro de segurança. Três negociadores da PSP encetaram conversações com o suspeito. Entretanto, um irmão do homem chegou ao local. Mais tarde viria outra irmã. Inspectores da PJ e psicólogos do INEM também foram chamados.
O homem estava trancado na secretaria do Tribunal de Família e Menores. Porém, no momento da intercepção policial, não ofereceu resistência. Foi levado para as instalações da Divisão de Investigação Criminal do Porto, à Rua dos Bragas, onde pernoitou, devendo ser levado hoje ao juiz de instrução criminal. Em causa estará um crime de coacção contra órgãos de soberania, cuja moldura penal vai de um a oito anos de cadeia.
* com Orlando Castro