"Blindness" em Cannes
João Antunes em Cannes
Foi com alguma frieza, é certo, que a Imprensa, em Cannes, recebeu aquela que foi a primeira projecção mundial de "Blindness", a adaptação do romance de José Saramago, "Ensaio sobre a cegueira".
Mas a razão principal para ter sido assim o acolhimento do filme que abriu o Festival de Cannes sob o signo de Portugal tem a ver com o próprio tema do filme, que retira fielmente do livro de Saramago a metáfora sobre a Humanidade e sobretudo a sensação de desconforto. E reside aí o segredo do sucesso da adaptação, que muitos julgavam impossível, a começar pelo próprio Saramago, que se mostrou tão reticente em ceder os direitos do livro.
"Blindness" é uma obra desconfortável, pelo que nos mostra do que somos, ou podemos ser, quando algumas coisas que julgamos básicas no nosso mundo tão organizado começam a faltar. Nesse sentido, a visão é apenas um símbolo. Um dos mais poderosos que se poderiam imaginar, pelo que de tão essencial é para a nossa vida de todos os dias.
O filme é uma realização do brasileiro Fernando Meirelles, o cineasta que em apenas dois filmes, "Cidade de Deus" e "O fiel jardineiro", se tornou coqueluche do cinema internacional. Apesar de ainda ignorado por muitos, "Blindness" vem provar que o realizador brasileiro conseguiu afirmar-se devido à sua peculiar utilização dos elementos que compõem a narrativa cinematográfica, nos sons e nas imagens, procurando uma nova forma de comunicar com o espectador, num mundo onde a imagem e a representação mediática adquiriram uma outra dimensão.
Apesar desse desejo experimentalista, Meirelles não tentou o impossível encontrar um equivalente cinematográfico para a fórmula narrativa usada por Saramago. "Blindness" é uma possibilidade de adaptação a um outro meio e é perfeitamente funcional, no sentido em que preserva os valores do meio que o precede. Assim como os leitores do livro não resistem a devorá-lo após o final da primeira página, também o filme se segue com enorme curiosidade da primeira à última imagem.
Estas ligações, para serviços externos ao Jornal de Notícias, permitem guardar, organizar, partilhar e recomendar a outros leitores os seus conteúdos favoritos do JN(textos, fotos e vídeos). São serviços gratuitos mas exigem registo do utilizador.
