Especialistas defendem a necessidade de uniformizar os critérios de avaliação nas escolas.
A definição de metas de aprendizagem para os alunos, anteontem anunciada, servirá de pouco se, do ponto de vista dos resultados, a interpretação não gerar consenso entre pais, professores e tutela. Além disso, chega com 10 anos de atraso.
"A definição de metas de aprendizagem por disciplina e por ano lectivo é aparentemente adequada, porque o sistema de ensino deve ser monitorizado e exige metas. Mas, a partir do momento em que há metas definidas, é preciso definir métricas, ou seja, a parte quantitativa dos objectivos", começou por afirmar, ao JN, Ivo Domingues, professor do Núcleo de Estudos em Sociologia, na Universidade do Minho, a propósito do anúncio anteontem feito por Isabel Alçada. "Não temos estabelecido com precisão o que uma criança deve saber quando sai de determinado ano. Precisamos de ter uma espécie de padrão", avançou a ministra da Educação em entrevista à RTP.
No entanto, "a dificuldade desse padrão - que, em teoria, é muito adequado -, passa pela interpretação dos resultados obtidos. Para ser eficaz, a meta, a métrica e o resultado, têm de gerar consenso entre pais, professores e tutela", alega Ivo Domingues. Aquilo a que temos assistido, crítica o sociólogo, "é à existência de vários pontos de vista, todos corporativos e irreversíveis, e sempre obedecendo a uma lógica política."
O consenso entre os agentes educativos não é o único problema que a equipa liderada pelo professor Natércio Afonso, que começou a trabalhar esta semana no processo, tem para resolver. "É preciso uniformizar os critérios de avaliação", advoga Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação de Professores de Português. "Há mais de dez anos que falamos da necessidade de universalizar a avaliação. Sem isso, não será possível que os 14 valores de um aluno numa escola de Lisboa valham o mesmo que os de outro numa escola de Bragança", exemplifica. Defende ainda o "reforço de carga horária para a língua materna e o desdobramento de turmas para que seja possível ensinar devidamente as competências de leitura, escrita e oralidade, até porque esta última nem sequer é depois avaliada em exame".
Nuno Crato, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPN), lembrando que também "a SPN há já muitos anos tem vindo a insistir na necessidade de traçar metas", acrescenta um terceiro parâmetro, sem o qual a boa intenção da ministra não surtirá efeito: a equipa. E explica porquê. "Isto nunca aconteceu por teimosia dos técnicos a quem o ministério sempre entregou a gestão da parte pedagógica do sistema educativo", denuncia. "Se não houver coragem para colocar na equipa quem efectivamente concorda com a definição de metas, a mudança será apenas cosmética."