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Festa feminina interdita a homens

HELENA SILVA

É na 'Noite das Bruxas' que as mulheres de Cavalinhos, Leiria, se juntam, longe do olhar e da presença dos homens. A festa realiza-se há 15 anos, sem interrupções e sem quebra de regras. Novas e velhas, elas procuram apenas a diversão.

Na pequena aldeia da freguesia da Maceira, a questão assombra as cabeças dos homens, uma noite inteira: o que fazem cem mulheres, juntas, fechadas num espaço interdito à presença masculina? Divertem-se. E muito. Numa noite em que esquecem da lida da casa, dos deveres matrimoniais, dos cuidados com os filhos e até da existência dos homens.

Eram 21 horas quando, na sexta-feira, o fogo de artifício, à porta do clube de Cavalinhos, dava início à festa. Elas agrupavam-se à porta, de sorriso aberto e gargalhadas à mistura. Eles já sabiam que as redondezas do local lhes estavam interditas. E tinham de encontrar um programa alternativo: em casa, a dormir ou a tomar conta dos filhos, ou em saídas com amigos.

"Não estamos a abandoná-los. Não é essa a questão. Estamos é a usar o nosso direito de, uma vez por ano, nos divertirmos, todas juntas", explicou Cristina Francisco, da organização do encontro deste ano.

Pela primeira vez, elas escolheram reunir-se no clube da terra, à porta de casa. Nas edições anteriores, tinham-se juntado em restaurantes da zona e a noite terminava na discoteca. Desta vez, tudo se passou no clube.

O jantar foi servido por empregados do sexo masculino e a banda encarregue de as animar era composta por homens (a banda Marco Eduardo). E foram as únicas excepções a uma regra criada há 15 anos: naquela festa, homens não entram.

Apesar disso, houve alguns mais ariscos que ainda tentaram, pela porta entreaberta, dar uma espreitadela. Foram corridos.

Até o senhor Manuel, de 76 anos, se viu impedido de satisfazer a curiosidade, apesar de invocar um argumento de peso: "preciso de entrar, porque fiquei fechado na rua. Quero entrar em casa, mas quem tem a chave é a minha mulher". A chave de casa foi entregue, mas o ancião não passou da entrada.

No interior, a animação era a palavra de ordem e a idade, mais ou menos avançada, não criava obstáculos. Elas jogaram jogos tradicionais, dançaram ao som da banda, aprenderam uns passos de dança com a professora Valéria Carpalhosa e saltaram mesmo à corda, já depois da meia-noite.

Com uma energia capaz de fazer inveja a qualquer Hércules, elas ainda arranjaram força para cantar, já madrugada dentro. O riso soltava-se facilmente, por uma única razão: estavam juntas, muito animadas. E sem homens.

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