Parque sobre ruínas não é consensual
CARINA FONSECA *, * COM AGÊNCIA LUSA
O Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico - Igespar autorizou a construção de um parque de estacionamento sobre vestígios do Convento de S. Domingos, em Coimbra. A questão divide os académicos.
A obra arrancou em 2007, na Avenida Fernão de Magalhães, pondo a nu parte do convento medieval, de inícios do século XIII. Foi interrompida, mas pode agora prosseguir. De acordo com o subdirector do Igespar, João Cunha Ribeiro, "o achado reporta-se, apenas, a uma pequena parte do Convento de S. Domingos" : uma eventual cozinha e "uma parte muito marginal do claustro". Estima-se que a Igreja e o claustro estejam debaixo daquela avenida (a mais movimentada da cidade) e de prédios.
João Cunha Ribeiro diz que a conservação por registo está assegurada, e explica: "Se optássemos por conservar as ruínas [a nove metros de profundidade, abaixo do leito freático do Mondego], elas nem tinham condições de preservação, tal a fragilidade dos solos em que assentam".
Ainda assim, Maria de Lurdes Craveiro, docente do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras de Coimbra (FLUC), entende que se deveria "fazer um estudo mais consistente, sério, sobre as estruturas encontradas e, se possível, ir mais além". Visitou o local e não tem dúvidas: "O que está ali é um desafio para a comunidade académica e os especialistas mas também uma mais-valia sobre a própria cidade. Não sei até que ponto não valeria a pena reconfigurar toda a estratégia - não avançar com o parque e estudar o que aqueles muros têm a dizer".
Jorge Alarcão, professor jubilado do Instituto de Arqueologia da FLUC, tem opinião diferente. "Do ponto de vista científico, o achado tem muito interesse para a História da cidade; do ponto de vista patrimonial, parece-me que não tem a centésima parte da importância que tem o Convento de Santa Clara-a-Velha", defende, com a ressalva de que precisa de fazer mais estudos.
Já o historiador da Universidade de Coimbra, Saul Gomes, conta que o convento "teve um lugar muito relevante na História da Ordem Dominicana, em Portugal", mas lembra que "o progresso não é incompatível com a preservação da memória", existindo "várias soluções" para salvaguardar os achados.
Um dos sócios-gerentes da empresa promotora da obra, José Gonçalves, disse à agência Lusa que há "centenas de milhares de euros de prejuízo" e que "está em causa toda a sustentabilidade do projecto".
O JN tentou contactar o presidente da Câmara de Coimbra, Carlos Encarnação, sem êxito. Já Sidónio Simões, director do Gabinete para o Centro Histórico, manifestou plena confiança no Igespar: "Se decidiu assim, os vestígios não devem ter um interesse tão grande".
Estas ligações, para serviços externos ao Jornal de Notícias, permitem guardar, organizar, partilhar e recomendar a outros leitores os seus conteúdos favoritos do JN(textos, fotos e vídeos). São serviços gratuitos mas exigem registo do utilizador.
