Portas fecharam mais cedo nos bares do Bairro Alto
Comerciantes cumpriram novo horário, mas a juventude não gostou da medida
CRISTIANO PEREIRA
Dito e feito: poucos minutos depois das duas da manhã de ontem, já não havia bares abertos no Bairro Alto, em Lisboa. A polícia municipal esteve lá e encarregou-se de fechar todas as portas. Comerciantes e noctívagos protestaram.
Foi a noite em que entrou em vigor a nova regra de horários para os bares do Bairro Alto imposta por um despacho do presidente da Câmara Municipal, António Costa. Desde sábado passado que todos os bares passam a fechar às duas da manhã.
O JN esteve no local e verificou que todos os comerciantes fecharam as portas a essa horas - ou escasos minutos depois. Mas fizeram-no contrariados e dispostos em prosseguir a luta de maneira a que a autarquia volte atrás na medida.
Antes, por volta da meia-noite, o ambiente era de alguma apreensão. Alguns comerciantes garantiam ao JN que iam cumprir o novo horário mas faziam questão de sublinhar que ainda não tinham sido notificados oficialmente. Ao mesmo tempo, uma equipa de agentes da Polícia Municipal de Lisboa, devidamente fardada, fazia uma ronda pelos bares de maneira a alertar os proprietários para o cumprimento do novo horário, ainda que "com meia hora de tolerância".
Como não podia deixar de ser, esse era o principal assunto nas conversas entre os noctívagos nas ruas e nos bares. Uns mostravam-se cépticos: diziam que a médio prazo os novos horários não serão cumpridos e que dentro de algum tempo tudo voltará ao cenário anterior. Outros adoptavam uma postura mais resignada, admitindo que doravante começarão a seguir outros itinerários de boémia, com Santos e Cais do Sodré a destacarem-se na lista de alternativas ao Bairro Alto. Outros, por seu turno, preferem esperar para ver no que isto vai dar.
Mas em todos existe um denominador comum: a insatisfação pela nova medida adoptada pela autarquia. "É impossível mudar os hábitos das pessoas que vêem para aqui há muitos anos", apontou João Carlos, lisboeta de 27 anos, trabalhador num call center, e frequentador assíduo dos bares do Bairro Alto durante as noites de fim de semana. Na sua óptica, até faria sentido os bares fecharem mais cedo durante os dias da semana "porque há moradores que trabalham cedo no dia seguinte" mas já não vê com bons olhos que a medida se aplique às noites de sexta e sábado. À porta de um bar na rua da Rosa, João Carlos apontou para a multidão à sua frente e questionou-se: "Para onde querem mandar esta gente toda às duas da manhã?".
Alguns metros ao lado, o seu amigo Francisco Rodrigues, 24 anos, profetizou uma nova tendência que poderá surgir nos próximos tempos: o aparecimento de vendedores ambulantes de bebidas pelas ruas do Bairro. "As pessoas gostam de ficar a conversar aqui pelas ruas e vão ter que comprar bebidas em algum sítio", explicou, frisando que tal situação poderá configurar "um grande negócio".
Certo é que 45 minutos depois das 2 da manhã de ontem, as ruas do Bairro Alto estavam estranhamente mais calmas do que nos outros fins de semana. A multidão escoara para outros pontos da cidade.
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