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Procurar no lixo o pão para a boca

Restos dos supermercados que diariamente são colocados nos contentores de rua constituem a fonte de alimentação de várias famílias que, embora tendo um lar, enfrentam sérias dificuldades económicas

CRISTIANO PEREIRA

São 19 horas em ponto de uma noite de Inverno onde não falta a chuva. Numa rua do centro de Lisboa, abre-se uma porta das traseiras do supermercado de uma cadeia bem conhecida dos portugueses. Em poucos minutos, uma empregada coloca uma dezena de contentores de lixo no passeio.

Escassos metros ao lado, uma senhora búlgara faz de conta que olha para a montra de uma sapataria. A porta das traseiras do supermercado fecha-se e, sem demoras, aproxima-se dos contentores, abre a tampa e desata a mexer no que está lá dentro. Tem fome. Não sabe falar português. Diz-nos apenas, os dedos todos na mão aberta: "Cinco filhos, cinco filhos". Também têm fome.

Num ápice, surgem dois senhores de sacos na mão, um idoso e outro de meia idade. Debruçam-se sobre o interior dos contentores, os braços agitados a revolver o lixo. Que lixo? Os restos do dia, as sobras daquilo que ninguém comprou. E muita comida com o prazo de validade esgotado: frangos ou coelhos inteiros, peixe ou hortaliças. Pão, croissants e outros bolos, então, - ui! - são às dezenas. Ainda embalados nos sacos, com o respectivo preço, código de barras e data de validade a expirar no próprio dia (atente-se que o lixo foi depositado às 19 horas, 120 minutos antes do horário de encerramento do supermercado).

O JN aproxima-se, observa, tenta a abordagem. Eles mostram-se desinteressados, os olhos sempre postos no contentor. Não parecem querer grande conversa. Desconfiam. E mexem e remexem em embalagens, sacos plásticos, caixas de esferovite. A senhora búlgara, convencida de que ali estamos para o mesmo, estranha ver-nos quedos e toma a iniciativa de estender o braço para nos dar um saco de croissants.

É esta a dura e crua realidade diária de muita gente: procurar a comida no lixo que os supermercados deixam na rua. Não são pessoas sem abrigo. É gente perfeitamente integrada na sociedade, mas que vive à rasca, no desemprego ou com parcas reformas. O fenómeno não é novo, nem tão pouco circunscrito a este estabelecimento em particular. É algo que acontece em todo o país, onde quer que a fome aperte. E há fome em muitos lados. Como na casa de um idoso, que diz receber 350 euros de reforma, não tendo orçamento para o mês inteiro. É isso que o faz vir aqui mexer em restos de fiambre, separar as fatias que se lhe deparem decentes de outras mais impróprias.

Não passam mais de quatro minutos até chegar uma senhora com os seus 70 anos e aspecto cuidado. Assusta-se com a presença de uma máquina fotográfica, mas aceita falar sob anonimato. É uma história como tantas outras: trabalhou durante décadas como empregada doméstica, nunca descontou, foi despedida e agora vive sem reforma:

"Enrolaram-me, sabe? Era muito ignorante", lamenta. "Há muita gente que vem aqui, mas diz que é para levar comida para os animais", observa, antes de criticar aqueles "que vêm aqui mexer e deixam tudo espalhado no chão". Diz-nos que o mais habitual é aproveitar para levar pão e massa. "Eu acho que não estou a roubar nada a ninguém", afirma, antes de nos perguntar: "Isto não pecado, pois não?". É que se for eu não venho cá mais".

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Comentários
5 Comentários

 
 
     
 
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08.02.2009
19:23
Portugal - Castelo Branco
Fico estupefacto com determinados comentários. há quem promova a pobreza para alguns poderem exercer a caridade. Isto é ridículo, pensar que a comida fora de validade resolve o problema da miséria. O real problema é o miserabilismo do pensamento. Aconselho a que se concentrem no problema real, e não blasfemar contra o cumprimento da validade nos alimetos.Procurem combater a real origem da fome.

 
 
 
08.02.2009
12:50
Portugal - Braga
supermercados, para doação de alimentos e afins para fome em África, e eles prórpios a deitarem alimentos fora, com fome no próprio país. Infelizmente, trata-se melhor estes agentes económicos que os próprios vendedores tradicionais, apesar de estes desperdiçarem bastante menos. Enfim, num país destes, com tanta coisa para ser mudada, mentalidades inclusivé, é esta a vida que temos que suportar .

 
 
 
08.02.2009
12:46
Portugal - Braga
Aquilo que mais me espanta é o de deitar comida fora. Comida no limite do prazo de validade, indicador este que limita a resposabilidade do vendedor até àquela data e que o produto encontra-se em perfeitas condições de ser consumido, sendo raríssimas as excepções. Se proibissem este "crime" de desperdício de comida, com tanta gente a passar fome no mundo, com campanhas promovidas pelo próprios...

 
 
 
08.02.2009
01:56
Portugal - Castelo Branco
É a parte que me assusta e me angustia na noticia: "É esta a dura e crua realidade diária de muita gente: procurar a comida no lixo que os supermercados deixam na rua. Não são pessoas sem abrigo. É gente perfeitamente integrada na sociedade, mas que vive à rasca, no desemprego ou com parcas reformas.

 
 
 
08.02.2009
01:12
Portugal - Porto
É muito triste que isto aconteça num país que gasta tantos milhões de euros em estádios, casa da musica, centro cultural de Belém e outras obras de fachada, e com tanta gente a passar fome. Pensando bem nisto, só dá vontade de dizer: Viver para quê?.

 
 
 

 
 
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