No piso -2, da galeria pedonal da Estação do Oriente, em Lisboa, há um túnel de acesso ao terminal rodoviário.
É um corredor com cerca de 80 metros e onde diariamente dormem dezenas de pessoas deitadas em cartões e embrulhadas em cobertores. Gente sem casa, sem dinheiro, muitos sem família, à deriva. Cada um tem o seu drama: falta de emprego, doenças, problemas de documentação, por aí fora. Há portugueses, africanos, romenos, indianos. São quase todos homens, dos 20 aos 70 anos. Mas há, também, quem tenha trabalho, mas ali viva temporariamente até conseguir juntar o suficiente para conseguir pagar um quarto. O JN passou algumas noites junto destes Sem Abrigo e tentou perceber o que ali os levou e o que pretendem fazer para dali sair.
Alguns deles têm um aspecto perfeitamente normal, longe da imagem pré-concebida que vem à mente de cada vez que pensamos num sem abrigo. Quem se cruzar na rua com Fernando, de 22 anos, jamais pensará que dorme num corredor de uma estação. Mas pernoita ali "já lá vai um ano e tal". Fernando vivia nas Beiras. Os pais morreram e os tios não gostavam dele. Mudou-se para Lisboa à procura de melhor sorte. Sem dinheiro, sem amigos e sem tecto onde dormir. "Passava as noites a tentar adormecer nos autocarros nocturnos", conta. Numa dessas noites, o autocarro levou-o à Gare do Oriente. "Estava um bocado assustado, com medo de adormecer, mas na segunda noite houve um senhor que veio ter comigo para me dar um cobertor e perguntar se eu tinha fome". É visível a solidariedade e espírito de entre-ajuda entre aqueles que ali dormem. O JN testemunhou, por várias ocasiões, a partilha de alimentos, cobertores, pedaços de cartão. "Somos unidos", confirma Fernando. "Comemos o que temos, partilhamos o que temos: se só tivermos uma sandes, a sandes é partida ao meio".
Às vezes, com sorte, dividem "frangos e chouriços" que sobram numa churrasqueira lá perto e que lhes são oferecidos, conta Pedro, 20 anos, expulso de casa pela própria mãe, a dormir em cartão há cerca de um mês. "Quero ter a minha vida normal, esta vida não é para ninguém", desabafa-nos.
João - assim pediu para ser identificado - ganhava 150 euros por mês na Roménia. Veio para Portugal tentar ganhar mais. "Fiz asneira: aceitei um trabalho sem contrato", assume. O patrão português desapareceu sem deixar rasto e sem lhe pagar três meses de trabalho". Sem dinheiro para pagar o quarto, viu-se obrigado a fazer da estação a sua casa. "No início tinha medo", murmura, a voz trémula quando cita o "desagradável" que é sentir-se mirado pelos transeuntes que ora se riem e gozam, ora olham desconfiados: "Pensam que sou um ladrão", lamenta. "A minha família está na Roménia e não sabe o que está acontecer", confessa. Nas últimas semanas, João arranjou outro emprego como manobrador de máquinas numa obra. Está à espera de receber o primeiro ordenado para conseguir sair dali: "Quero alugar um quarto e ajudar a minha mãe", afirma, com esperança.
"Eu vim aqui parar assim um bocado de pára-quedas", explica, por seu turno, Francisco, de 45 anos, que há meses saiu de Famalicão e apanhou um comboio para Lisboa para tentar a sorte. A sua família também desconhece a sua sorte. Diz ter esperança em encontrar um "biscate" em telemarketing. Enquanto não acontece, solta a desilusão: "Sou católico desde miúdo e uma das coisas que me entristece é ver que a nível de ajudas só aparecem aqui das outras igrejas". "Nunca vi ninguém da Igreja Católica a perguntar se tenho fome ou se quero um copo de leite", sublinha.