A criação de taxas para o acesso dos veículos ao centro das cidades está a ganhar expressão na Europa. Em Portugal, Lisboa e Porto também
sofrem com a pressão dos automóveis. Mas devem as cidades importar os modelos europeus?
Os especialistas ouvidos pelo JN entendem que as cidades lusas ainda não têm condições para aplicar a taxa de congestionamento, como existe em Londres e em Estocolmo. É convicção de Paulo Pinho, docente da Faculdade de Engenharia do Porto, de que a introdução de taxas pode ser um "perfeito tiro no pé", no momento em que pretende reabilitar-se os centros do Porto e de Lisboa.
"Não estamos na fase de desenvolvimento de Londres e de Estocolmo. Essas medidas foram introduzidas nas duas cidades sem problema de declínio urbano, porque têm uma capacidade de atracção de investimento às zonas centrais impressionante.", atenta o especialista em Mobilidade e em Planeamento do Território
No entanto, a impossibilidade de importar essas taxas não pode ser sinónimo de inacção. O ambientalista Bernardino Guimarães - certo de que, no futuro, as portagens de acesso ao centro das cidades serão uma "inevitabilidade" - defende que por agora é possível dar outros passos, embora deva começar a pensar-se já na introdução dessa medida.
"A prática política tem que mudar, pois, o que se faz nas cidades é sempre o incentivo da rodovia", sustenta. Além do investimento na melhoria da rede de transportes públicos, Bernardino Guimarães é favorável à subida do preço para não residentes do estacionamento no centro das metrópoles e ao aumento da pressão da fiscalização no aparcamento ilegal. Quer, ainda, mais ruas pedonais, ciclovias e corredores bus.
Já para Paulo Pinho, a primeira medida deve ser a reorganização do sistema de circulação. "Temos, hoje, uma situação insustentável e pouco recomendável, que é o tráfego pesado que atravessa Gaia e Porto através da VCI e não tem como origem nem destino estas cidades", acrescenta.
Penalizar trânsito pesado
Logo que a Circular Regional Externa do Porto fique concluída, o especialista defende a implementação de um sistema que penalize o trânsito pesado que insista em cruzar a VCI. Uma medida concretizável com a criação de uma portagem nas vias de acesso à VCI para o trânsito de atravessamento. Os residentes na Área Metropolitana não teriam de pagá-la. Se esse tráfego fosse pela circular externa seria menos penalizado (podia pagar menos) do que se seguisse pela VCI. "Em Lisboa, o problema é o mesmo. Há que libertar a circular interna do trânsito interurbano e interregional", esclarece Paulo Pinho.
Nélson Barros, professor associado da Universidade Fernando Pessoa, sustenta que, antes de introduzir as portagens, é indispensável estudar, de forma profunda, as motivações das pessoas para preferirem o automóvel nas deslocações diárias. "As medidas coercivas, como portajar, não podem ser avulsas. No Porto e em Lisboa, tem de caminhar-se para outro tipo de medidas, antes de chegar às portagens. Se quero gerir o sistema de transportes, tenho de compreendê-lo", assinala.
O especialista sublinha a importância da educação cívica nas primárias, seguindo-se a implementação de "políticas de discriminação positiva", como a abertura de uma faixa rápida na VCI do Porto só para carros que circulem com quatro ocupantes. "Pode ser aplicada durante algumas horas, mas temos de ver se é exequível", explica, apontando, ainda, para a fixação de uma taxa para veículos que circulem nas cidades só com um condutor. "Hoje, a média de passageiros em Portugal é de 1,4 pessoas. Se conseguissemos subir para 2, teríamos uma quebra de 30% no número de veículos a circular no Porto", conclui.