De nariz no ar atrás da tia e do gato nas bandeirinhas
Porto Projecto artístico enfeitou para o S. João as ruas da Ribeira e da Baixa com os rostos de quem lá passa
INÊS SCHRECK
| foto Artur Machado/JN |
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| Teresa mora na Rua da reboleira, no Porto e orgulha-se de ver a sua foto numa bandeirinha de S. João |
Por estes dias, nalgumas ruas da Ribeira e da Baixa, anda tudo de nariz no ar. Há bandeirinhas de S. João por todo o lado, mas essa não é a novidade. É que este ano, cada bandeirinha tem o rosto de um morador, comerciante ou habitué da rua, como a Puca, a gata da dona Odete.
Nascida e criada na Ribeira, vendedora de peixe, dona Odete está à porta da mercearia a olhar as bandeirinhas que esvoaçam agitadas pelo vento forte e quente. "Ficou bonito, muito bonito, está ali a puquinha, vê? E eu estou ali naquela bandeirinha e lá atrás na outra, era mais novinha", ri-se, apontando as fotografias.
Odete foi um dos grandes apoios que Ana Neto, mentora e organizadora do projecto "Festa em Festa", encontrou na Ribeira. Ajudou-a, sobretudo, a ultrapassar resistências de moradores que não queriam aderir ao plano que, meses antes, tinha proposto à Câmara do Porto: fazer uma intervenção artística para o S. João que envolvesse a população da cidade. A ideia foi aceite e, em Março, Ana Neto e a sócia Joana Lima puseram mãos à obra. Ana na Ribeira, Joana nas ruas Galerias de Paris e Cândido dos Reis.
Era preciso conhecer as pessoas, convencê-las a cederem uma fotografia ou a serem retratadas para figurar em bandeirinhas de S. João que seriam colocadas nas ruas da Fonte Taurina e da Reboleira (na Ribeira) nas Galerias de Paris e Cândido dos Reis (aos Clérigos) e na Rua das Flores (entre o Largo de S. Domingos e a Fundação da Juventude).
Inicialmente, pensaram em concentrar todas as fotografias dos moradores da Ribeira em apenas uma artéria, mas ninguém quis figurar na rua do vizinho. "Avisaram-me logo: eu? nessa rua, nem pensar", conta Ana, rindo das dificuldades que iam surgindo. "Foram dois meses de contactos diários na Ribeira". Mas depois da dona Odete, a gestora do projecto conheceu a dona Conceição, o Nando, o Naná, o Inácio, o sr. José e por aí fora. A ideia foi ganhando forma e, de repente, já tinham duas mil fotografias para tratar, imprimir em acetato, agrafar às bandeirinhas e pendurar nas ruas.
No final da semana passada, montaram-nas e começou "a borga". "Tudo a perguntar onde estava este e aquele, os estrangeiros a tirar fotografias, foi a conversa do dia", conta António Pinho, gerente do restaurante Ora Viva, na Rua da Fonte Taurina. Tem o seu rosto numa fiada de bandeirinhas, mesmo à porta do estabelecimento. Por ali andam também o símbolo do F. C. Porto, o da associação Passarinhos da Ribeira e dos Ribeirenses, outrora sediadas na rua.
"Para o ano, tem de pôr as bandeirinhas por famílias, para não nos esquecermos dos antigos aqui da Ribeira", diz Odete para Ana. A resposta é um sorriso e poucas promessas. Pode ser que para o ano haja mais.
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