Passeio marítimo até ao Castelo do Queijo está prestes a ser classificado imóvel de interesse público e zona especial de protecção. O processo já foi aprovado pelo IGESPAR e falta apenas o aval do Ministério da Cultura
Sentada num dos bancos dos jardins centenários da Avenida de Montevideu uma família, actualmente a residir em Amarante, "mata saudades" dos 30 anos em que viveu junto ao Passeio Marítimo do Porto, mais concretamente ao pé do café Bela Cruz.
O casal e a filha adoram as vistas para o mar mas criticam a falta de flores na área ajardinada, o desconforto dos bancos e a construção na marginal de prédios que nada têm a ver com a arquitectura das casas mais antigas.
"São autênticos caixotes. Não têm nada a ver com nada. Daqui a pouco, está tudo descaracterizado. Devia-se era renovar as casas antigas", afirma Maria de Fátima, merecendo a concordância dos pais, Manuel Luís Coelho, de 77 anos, e Rosa Pinheiro, de 74 anos.
Daí que essa família defenda que há muito a zona da Avenida Montevideu devia ser protegida. É isso mesmo que a Câmara Municipal do Porto procura fazer, desde 12 de Outubro de 2004, quando deu entrada no IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) o pedido de classificação como imóvel de interesse público da Avenida Montevideu e de todo o Passeio Marítimo, até ao Forte de S. Francisco Xavier (Castelo do Queijo), que individualmente já tem essa classificação.
O pedido da Autarquia, que prevê que toda aquela área seja considerada zona especial de protecção, foi aprovado pelo IGESPAR no passado dia 7 de Janeiro. Anteontem, foi feita a publicitação para que possam ser apresentadas, no prazo de dez dias, eventuais reclamações. Depois, falta só o aval do Ministério da Cultura.
"O processo já está na sua fase final", garante o director municipal da Cultura, Raul Matos Fernandes, explicando que, com a classificação de imóvel de interesse público toda aquela zona será protegida, o que implica que "qualquer intervenção tenha que ser aprovada pelo IGESPAR".
Rui Velho, que recentemente se mudou para a marginal do Porto precisamente pela paisagem, concorda que se preserve tudo o que diga respeito ao "ordenamento do território e espaços verdes". Tal como a família de Amarante, o consultor informático defende que todas as casas antigas da Avenida Montevideu deviam ser "recuperadas". "Se fosse possível manter esse tipo de casas, conseguia-se ter um área ao pé do mar muito agradável", sustenta.
Aliás, a arquitectura das casas antigas é um dos argumentos da Câmara do Porto que suportam o pedido de classificação de imóvel de interesse público (ver caixa). E algo que não escapa à vista mesmo de quem visita a marginal pela primeira vez. É o caso de José Manuel Azevedo, de Santo Tirso.
"Isto é muito bonito, claro que devia ser preservado", diz, prontamente. Embora admita que o jardim podia estar "um pouco melhor", José Azevedo ressalva: "Mas já vi piores".
É o que diz também Daniel Marques, que procura no Passeio Marítimo apanhar um pouco de sol. "Com as obras que se fizeram, isto podia ter ficado melhor, mais bonito e mais seguro, sem se gastar tanto dinheiro. Já há muitas coisas podres e com ferrugem", aponta, referindo-se às obras da Sociedade Porto 2001, que chegaram a ser embargadas por Rui Rio, precisamente por receios de que pudessem danificar o jardim centenário da Avenida Montevideu.