Famílias obrigadas a partilhar casa
Num bairro social do Monte de Caparica, em Almada, há famílias obrigadas a partilhar com outras, que não conhecem, o apartamen-to que lhes foi atribuído, situação que tem gerado alguma violência entre moradores.
"A conta que costumo fazer é esta: 12 pessoas para uma casa de banho", conta à Lusa uma guineense de 22 anos, alta e de lenço na cabeça, cujo nome não quer que se saiba. "Para além disso há sempre problemas na divisão das tarefas domésticas. Há umas semanas fui agredida pela namorada do terceiro inquilino deste andar. Ela mandou-me limpar o chão, eu respondi que não era criada dela. Acabei no hospital, a levar quatro pontos na cabeça", relata.
Neste apartamento em particular, cada um dos três exíguos quartos funciona como uma casa: há camas, diversos colchões ao alto, encostados às paredes, armários, frigoríficos, arcas frigoríficas, pratos, panelas e artigos de higiene pessoal.
A cozinha tem três fogões, cada um ligado à sua botija de gás. Cada morador paga "34 euros e alguns cêntimos" pelo espaço que lhe foi atribuído.
No quarto andar de um prédio à frente deste estão duas mulheres com mais de 50 anos, uma guineense e outra são-tomense. Nenhuma delas quer o seu nome nos jornais, mas "sabem o que se passa com os vizinhos e sabem o que se passa com elas". E contam.
"Vamos muitas vezes resolver os conflitos, apelar ao bom senso, porque queremos paz. Mas não é sempre fácil. As pessoas não têm privacidade, não têm condições", afirmam.
A mais nova das duas mulheres estava separada há mais de quatro anos quando lhe atribuíram um apartamento em cujo contrato constava também o nome do seu companheiro. "Se ele não tivesse tido vergonha de aparecer aqui em casa, teria que dividir a casa com ele. Um T2 para mim, para os meus três filhos e para um homem com quem nem sequer falo", termina.
Fonte da CMA explicou à Lusa que "na sequência da demolição da matas de Santo António, em que foram realojados os indivíduos inscritos no Plano Especial de Realojamento (PER), a autarquia, não querendo deixar ninguém na rua, alojou também alguns indivíduos que não estavam inscritos no Plano".
A mesma fonte afirma que está sensível a esta questão, mas afirma que a habitação é insuficiente para todos: "No caso das habitações vagas", afirma, "já têm destinatários e a autarquia não pode ocupá-las".
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